Para poder pagar as viagens ao Brasil nas férias, porque a vida longe do caos era um caos ainda maior, ela dava aulas particulares de inglês. Entre os alunos, havia um grupo de crianças japonesas que, assim como a professora, estavam morando na Holanda por um longo tempo. Como conseguiam entender a professora até hoje é um mistério, mas havia entre eles uma comunicação e tanto – sorrisos e desenhos incluídos na tentativa de chegarem uns ao entendimento dos outros apesar das palavras.

Um dia, um dos pequenos alunos, do alto de seus 6 anos, achou que nem os desenhos nem os sorrisos eram suficientes para que pudesse dizer exatamente o que gostaria para aquela professora que acolhia as crianças em sua casa todas as tardes na esperança de fazer com que aprendessem a falar com fluência a língua de que precisavam tanto. Ele, que era o mais quieto e solene.

A aula estava mais animada porque era quase verão.

Já haviam sobrevivido a muitas tardes gélidas em que era sempre mais difícil avançar – no chão, pois as botas dos pequenos atolavam na lama da chuva permanente, e na esperança de conseguirem se fazer entender mesmo com a dificuldade eterna de diferenciarem alguns sons.

Naquela tarde quente, a menina maior levou para a professora um pequeno doce japonês que parecia de feijão doce. Não foi a melhor surpresa.

Voltemos ao menino quieto e solene.

Em comum acordo com a turma, ao final da aula, o menino pediu para a professora se retirar da sala onde funcionava a escolinha. Ela obedeceu, embora tentando adivinhar o que poderia acontecer. Mas os céus não permitiram que a consagrada capacidade adivinhatória da professora aflorasse naquele instante. Era preciso que ela não soubesse o que estava prestes a acontecer.

Passados alguns minutos, quando as crianças chamaram a professora de volta à sala, ela deu de cara com o menino – quieto e solene – ajoelhado, fazendo um breve recital de violino.

Ele poderia estar de pé, mas escolheu ajoelhar-se.

Naquele momento, a comunicação foi tão imediata que dois planetas distantes dividiram ali o mesmo sol. Nenhuma tentativa anterior da escolinha improvisada havia conseguido maior entendimento entre todos do que a música no violino que o menino tão quieto e solene tocava. A música, amor entre os diferentes. Não houve quem ousasse infestar de palavras os minutos seguintes.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.