Aquele seria o último domingo das últimas férias em que a família se reunia antes de a verdade ser descoberta. As crianças eufóricas porque era dia da famosa lasanha da avó para a qual todos se preparavam com meses de antecedência. Os adultos inclusive. Tia Jucélia já havia feito a restrição dos doces da sobremesa para estar pronta para dois ou três pratos. A avó sabia da fome dos estômagos, então providenciava o maior pirex da casa – era uma enormidade, um assombro que mal cabia no forno.

A dificuldade era conduzir a peça quente e pesada da área, onde ficava o fogão, até a copa. A grande mesa estava à espera, cada um no seu lugar de sempre – pega um banquinho, Marcos, senta aqui. Os menores ficavam mal acomodados, as cadeiras eram dos mais velhos, era a lei da família.

Naquele domingo – parece que todos adivinharam que seria o último – não faltou ninguém. Até tio Aldinho, que costumava ser o menos sociável e fazia de tudo para não participar do culto à lasanha. Até porque ele gostava mesmo era de ver o dia passar dentro do bar do Oswaldo. Mas, por algum estranho motivo, decidiu trocar a cerveja pelo refrigerante, que combinava mais com o que estaria por vir. Foi uma surpresa para todos, que já tinham desistido de cativar o homem para a comunhão.

E foi quando a família estava a postos, as crianças em seus banquinhos, a euforia organizada, que a avó anunciou que iria tirar a comida do forno e iniciar o perigoso trajeto da área até a copa. Era um momento religioso que exigia silêncio. Qualquer sobressalto, um grito de criança fora do lugar, ou um dedo fora do guardanapo prestes a se queimar no pirex, e tudo iria para os ares.

“Gente, gente, vou pegar a lasanha”, era o anúncio solene.

Silêncio imediato porque ninguém queria ser culpado de nada. Que viesse a lasanha, derretendo-se em queijo e molho de tomate feito em casa, que o de lata veio uma vez com asa de inseto, e a avó bem que avisara à neta que comprava os ingredientes: traz tomate que eu não confio em molho pronto. Dito e feito. Depois do episódio, só molho de casa.

– Fica quieto, menino, que a avó não pode se desconcentrar. – A culpa antecipada era logo entregue às crianças se algo de errado acontecesse.

A avó tirou o pirex do forno com grande habilidade, guardanapo em punho, tudo medido para que o ritual fosse cumprido sem estragos. Ela atravessou a área, cruzou a cozinha e chegou à copa conduzindo com mãos firmes o prato que, desde a noite passada, começara a fazer, cortando e cozinhando os tomates, ralando o queijo. Enfim, nada podia dar errado, era a oração do momento.

Mas, assim que a avó colocou o pirex na mesa, eis que o mesmo estala. Trinca-se por dentro, não se sabe se motivado por um golpe de ar vindo da janela aberta. A manhã fria entrava na copa e ninguém se lembrara de que o quente do pirex poderia entrar em conflito com o vento da rua.

O silêncio foi imediatamente quebrado por lamentos.

Não havia como disfarçar o sofrimento de todos diante da cena. Nenhum deles, os mesmos que se esqueceram de fechar a janela, lembrou-se de ser solidário com quem deveria estar sofrendo mais.

Foi então que o pior aconteceu.

– Gente, é só mastigar bem. – A voz da avó, conclamando a todos para não se importarem com o acontecido.

Silêncio mortal. Mastigariam todos o vidro do pirex quebrado? Era isso mesmo que ouviram? Sim. A avó achou que, se mastigassem bem, não teria problema se o queijo derretido se misturasse aos pequenos cacos.

Coube ao tio Aldinho a tarefa de desmanchar a cena e conclamar a todos a se levantarem.

– Gente, vamos comer ovo. Fazer omelete. Sobrou queijo.

A avó estava desolada. Não conseguia se mexer e falava desconexos. No fundo, pensava que jogar toda aquela comida fora seria um desperdício. Assistiu ao enterro da lasanha sentada no banco perto do fogão, na área, de onde não saiu durante toda a tarde.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.