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Publicado em: 8 de julho de 2018

A espera

Que doloroso quando não se pode esperar nada de quem deveria estar sempre ao nosso lado...

Imagem: Agromov/iStock
Era muito pequena para entender que não se deve esperar por ninguém. Aos 11 anos, tinha a inocência de acreditar no que as pessoas diziam. E o pai, que saíra de casa aos pontapés, varrido pela mãe que não tolerou as bebedeiras, dizia que iria vê-la. Pode me esperar na Praça da Matriz tal hora que eu vou chegar, em ponto, minha filha, pode me esperar. Ela ia, confiante. Contava os dias em minutos e se arrumava como quem vai a um baile – queria que ele dissesse o quanto ela havia crescido. A mãe tentava abrir os olhos da menina para a mais dolorida verdade: Não espera que ele não vai aparecer. Ela nunca acreditava na mãe.

A inocência não se perde assim, com o poder da fala. Só aos trancos.

A menina ia sempre para a praça no dia e na hora quase certa – chegava mais cedo porque queria ver de que lado da rua ele viria. Ela refazia o ritual todas as vezes que ele dizia: Pode esperar que eu vou chegar. Novamente se arrumava como se fosse a um baile. Como queria que ele dissesse o quanto ela havia crescido! Perdeu as contas de quantas foram as vezes em que ela o esperou na praça sem que ele cumprisse a promessa de aparecer – Na semana que vem, minha filha, semana que vem, sem falta – eram as promessas ditas em bilhetes rascunhados às pressas e deixados na bodega, quando lá pela madrugada ele aparecia não se sabia de onde. Bem que a mãe lhe dizia: Não se espera por ninguém nessa vida...

Mas quando ela iria finalmente aprender a lição?

Cresceu de tudo, virou moça, mulher. Disse para a mãe que iria para a capital assim que conseguisse sair da pequena cidade – queria o mundo. A menina, que depois de tanta espera entendeu que na vida só se tem o que se busca, guardou para sempre o entendimento. Quem espera nunca alcança.

Por Claudia Nina – [email protected] Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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