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Publicado em: 11 de março de 2018

A louca da praça    

Imagem: KatarzynaBialasiewicz/iStock

Wanda era o nome dela. Vivia em uma clínica de idosos por decisão própria – internara-se depois de um episódio em que se perdeu no mapa da casa: confundiu a cozinha com o banheiro e fez tudo lá mesmo.

Era sozinha, as filhas sumiram no mundo. Nunca mais deram notícia.

Quando Wanda chegou à clínica, os cabelos tinham vida independente, indicavam que dentro dela havia gente. Wanda morava em Wanda. Um leve aspecto de liberdade e alguma audácia secreta, embora dos seus mistérios guardados ninguém quase nada soubesse. O único pequeno ponto de alerta para quem via de fora e não sabia de seus assombros noturnos: vestia sandálias com meias de lã coloridas. Ela bem poderia deixar os dedos gordos, pequenos e infantis à mostra, mas não. Mesmo nos dias quentes, insistia em vestir as tais meias.

No início, saía e voltava. Pegava a bolsa de tricô, possivelmente feita por ela, segurava como se fosse uma carteira chique, e ia dar uma volta no quarteirão. Passava até maquiagem. Depois de alguns anos, porém, desistiu de fazer o roteiro.

Com o tempo, Wanda passou a frequentar a pracinha em frente à clínica – e só. Era o mais distante que seus pés alcançavam. Ficava sentada no banco de pedra. Às vezes falava sozinha – esperava alguém? Não havia ninguém, o marido morrera havia décadas. A menos que fosse um amigo imaginário. Crianças têm amigos imaginários. Velhos também poderiam ter.

Aí chegava o pipoqueiro. Ela sorria e puxava assunto. Se não respondesse, jogava frases no chão, parecia dar milhos a pombos mortos. Insistia na personagem: a saia rodada, a maquiagem forte no rosto pálido – quase um choque anafilático. Contudo, não fazia má figura. Parecia normal. Não fossem as meias de lã coloridas na sandália.

“Jogava frases no chão, parecia dar milhos a pombos mortos.”

Até o dia em que uma cena desfez por completo a capacidade de Wanda rodar o próprio eixo. Foi o começo do abandono dos pés, que se despediriam das ruas e das sandálias. Novamente uma confusão geográfica. Wanda perdeu-se entre o banco da praça e o pipoqueiro – não sabia onde era a clínica, que ficava exatamente em frente, e começou a gritar como se uma abelha gigante tivesse invadido o sutiã. Uma das enfermeiras viu o espetáculo da janela e foi buscá-la.

A partir dali, Wanda perdeu o direito de sair – na clínica, os cuidadores temiam que ela se perdesse de vez. Nunca mais vestiu a saia rodada com estampa de cortina. Apagou o colorido da maquiagem dramática. Amarrou os cabelos dentro de uma boina amarela. Atirou as sandálias não se sabe onde e enfurnou os pés em pantufas quentinhas.

O pipoqueiro passou a referir-se a ela como a “louca da praça”, e não houve ninguém capaz de tirar o escrito daquele crachá.

Os pés de Wanda mofariam dentro das pantufas e não se sabe se algum dia sentiram saudade das ruas. É perigosa a decisão de trocar sandálias por pantufas – a poeira do mundo, aquela que conta a história dos passos, assenta-se para sempre no assoalho. Melhor talvez fosse, mesmo se perdendo, que Wanda insistisse em calçar as sandálias tão lindas, onde seus dedos gordos e infantis viveriam, de alguma forma, felizes – por quanto tempo mais? Isso é o mistério da vida.

Por Claudia Nina
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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