O casaco vinho de seu Jair sabia o destino do corpo antes mesmo de o homem acordar. E, por extensão, os sapatos e a calça bege, a camisa branca por dentro de tudo. Melhor não mexer no cenário de si mesmo. O cabelo que restou ele partia de lado, a medida dos fios tinha que ser cuidadosamente repartida – um lado não podia ser mais careca que o outro. E assim ele compunha o personagem que todas os sábados pela manhã se apresentava para o ritual de sempre.

Qualquer ônibus, qualquer destino

Plantava-se no terminal rodoviário de frente para um ônibus que partia – qualquer um. Ficava de pé à espera dos cinco filhos que, cada um na sua ordem de não aparecimento, não surgiam. Mas Jair não conseguia se lembrar de que os filhos não haviam aparecido na semana anterior e na semana anterior à anterior. Aliás, não se sabe se Jair chegou a combinar de fato com os filhos algum encontro no terminal.

É que o combinado só existia para ele, que tinha uns lapsos incuráveis de passado. Às vezes podia jurar que os filhos ainda eram pequenos e, enfileirados, preparavam-se para entrar no ônibus das férias que os levaria para a minúscula cidade embaçada (Jair não se lembrava do nome, por isso postava-se de frente a qualquer ônibus, que serviria ao intento das férias reinventadas).

Quem visse de longe se encheria de pena daquele homem alto, esperançoso, com as mãos para trás, composto como alguém que vai a um batizado, aguardando os ninguéns que não chegariam. Alguém se lembraria de avisá-lo de que os filhos não voltariam? Cada qual tratou de arrumar um destino novo e nunca mais deu as caras desde que a mãe faleceu. Jair se enfurnou no passado onde um dia foi feliz e não conseguiu mais sair de lá. Ele voltava sempre para o terminal, à espera da contagem dos filhos que entrariam, obedientes, um por um dentro do ônibus.

O momento da verdade

Existia, porém, o momento em que ele percebia que os filhos não viriam. Isso demorava um sábado inteiro. Por fim, cansado de tanto ficar na mesma posição e de pé, de olho no horizonte da plataforma, Jair recolhia a postagem de si mesmo e ia embora. A dúvida era saber qual mecanismo o fazia de repente perceber que o passado não voltaria. Porque havia o minuto cruel em que a verdade doída aparecia no lugar dos filhos.

E sozinho, cansado e despenteado, Jair voltava para a casa vazia à espera do próximo sábado.

O terminal era uma espécie de portal aberto para um tempo cheio de movimento, idas e vindas. Ele precisaria fechá-lo antes que partisse para mais longe.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

 

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.