Hoje a história é a de Helenice, aquela que foi literalmente arrastada porta afora de sua casa na direção do mesmo lugar de Wanda. (Na semana passada, contei a história de Wanda, que se mudou por livre e espontânea vontade para uma clínica de idosos depois que confundiu, de noite, a sala com o banheiro.) Tornaram-se colegas, só que uma jamais conversou com a outra.

Até porque, na clínica, Helenice não falava; apenas contava e recontava notas e moedas. Abria e fechava a carteira marrom. O fecho já estava desbotado de tanto ela imprimir ali seus dedos ansiosos pela contagem. Os próprios dedos estavam marrons, eram borrados. Ela se esquecia de quanto havia, não sabia que os números faziam sentido.

Mas o fato trágico ligado a Helenice era: chegou à clínica ensanguentada, depois de quebrar os cristais do armário de estimação do apartamento.

– Se eu não vou ficar com eles, ninguém mais fica – gritou na hora em que foi retirada da casa onde vivia com Esmeralda, a empregada de séculos.

Meteu a mão em copos, pratos, enfeites, vasos, compoteiras. Os cristais espatifaram-se, não sem antes partirem o rosto, os braços e as mãos de Helenice. Chegou fatiada à clínica, onde foi cuidada por enfermeiros de plantão.

Chegou à clínica ensanguentada, depois de quebrar os cristais do armário de estimação.

Devia ter sido muito rica. O que fizeram do dinheiro dela além da mixaria que ela contava e recontava não se sabe. Imagina-se que a família tenha feito o dinheiro evaporar para que ela não tivesse acesso, e a ideia de interná-la às pressas foi a saída óbvia para que mais dinheiro não fosse gasto a fim de manter controlada a demência em âmbito doméstico. Além de tudo, olhar um demente cara a cara diariamente é um prato indigesto, pensavam os familiares, que só não tinham a coragem de dizer isso na altura de alguém ouvir porque ainda lhes sobrava alguma discreta vergonha íntima.

Depois do incidente dos cristais, parentes e vizinhos passaram a alardear a fim de justificar a ausência de Helenice:

– Precisamos tirá-la de casa porque os cristais eram uma ameaça.

Helenice vivia por aqueles vidros, se metia por entre eles, pareciam vivos, gostava de conversar em silêncio com cada uma das peças. Esmeralda ouvia e tentava adivinhar o que havia de tão importante entre Helenice e os cristais, que segredos e histórias partilhavam. Mas não tinha acesso, era um quase um enamoramento.

De todas as dores profundas, de todas as solidões ou mágoas, nenhuma ia se igualar à falta que aqueles vidros faziam na vida dela:

Os cristais de Helenice eram a sua família. Foi o que Esmeralda, chorosa no dia em que se despediu da companhia de séculos, finalmente descobriu.

Por Claudia Nina
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.