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Publicado em: 8 de abril de 2018

O senhor dos cuidados

Imagem: Ljupco/iStock
Ele achava que conseguia tomar conta do mundo. Quer dizer, do pequeno mundo ao redor: a vida dos filhos e da mulher. Sempre que saíam para a rua, o senhor pensava que, se dissesse palavras de cuidado, o pior não aconteceria. O pior era a morte. Eram frases como: cuidado para atravessar a rua, cuidado com os pivetes, cuidado com a tempestade, hoje deu que vai cair chuva de pedra, cuidado com a noite, cuidado com o dia, o calor ou o frio, a rua está perigosa, o mundo é perigoso. Enfim, não importava para onde eles iam: dobrar uma esquina, ir a uma padaria ou cruzar um oceano. Todos os meios de transporte eram potencialmente perigosos e até os pés estavam sob suspeita. Para o senhor dos cuidados, o melhor seria que todos ficassem em casa, de preferência em frente à televisão. Os queridos familiares deveriam sair de casa apenas quando fosse estritamente necessário. Essa coisa de se divertir, nem pensar. Não passava pela cabeça daquele senhor que haveria diversão onde poderia existir perigo. Melhor que ficassem todos em casa e que assistissem a um bom e velho filme. A situação se agravou à medida que o senhor envelhecia. Dobravam os cuidados. Ele temia tudo. Não em relação a si mesmo, quanto a isso não havia apreensão. Ele achava que estava protegido dentro dele. O problema eram os outros. Estes nunca estavam a salvo. A palavra dele, assim como o olhar, ainda mais poderoso, tinham a capacidade de fazer com que estivessem resguardados do que viria – ou não – pela frente. O senhor dos cuidados não era homem de fé. Pelo contrário. Ironizava as religiões e os crentes de toda a espécie. Dizia que a única verdade do mundo era a matemática. Fazia uma exceção à previsão do tempo: confiava quando a meteorologia avisava que ia cair tempestade de granizo na pequena cidade.

O tempo fez com que aquele homem se tornasse uma criatura intratável. A ponto de ninguém mais partilhar com ele nenhum sucesso, sequer um passo – tudo era perigoso.

Quando o filho disse que havia conseguido uma vaga em uma ótima universidade na cidade vizinha, ele fechou a cara e disse que não deveria mudar-se para um lugar mais violento – todo lugar diferente era, antes de tudo, um lugar perigoso. A situação chegou a um nível tal que os filhos todos saíram de casa e cada qual buscou seu caminho. A mulher ficou por falta de opção. Tornou-se único alvo de seus cuidados, o que a transformaria em prisioneira a menos que não desse ouvidos para os maus agouros. Foi o que fez até o dia em que não aguentou mais e ela também resolveu ir embora. O senhor dos cuidados ficou sozinho diante da televisão. Pedia comida em casa. Só sobrou ele para cuidar dele mesmo. Resolveu dobrar a atenção. Até que em um domingo de chuva rala, o senhor decidiu que nem à banca comprar o jornal ele iria – o tempo poderia piorar, raios e trovões na linha do tempo deveriam ser obviamente evitados. Então, levantou-se para apenas tomar seu banho matinal. Seria aquela a única tarefa do dia: lavar-se. Entrou no boxe e fechou a cortina de plástico. O sabonete não estava no armário e sim no chão. Piso de banheiro escorregadio talvez não estivesse na lista de suas maiores preocupações, pois ele se abaixou sem nenhum cuidado – escorregou, bateu com a cabeça. Não houve como socorrê-lo. Quando os vizinhos arrombaram a porta depois de ouvirem o estrondo, já o encontram morto. O senhor dos cuidados se esquecera de que o pequeno mundo dentro do boxe é um lugar perigosíssimo.

Por Claudia Nina – [email protected] Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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