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Publicado em: 29 de abril de 2018

A solidão dos frascos

"Senhor, dai-nos a força para abrir frascos!"

Imagem: KatarzynaBialasiewicz/iStock
Entrou no elevador com um frasco de água oxigenada nas mãos. Uma senhora pequena, deveria ter lá seus 65 anos. Disse assim que entrou: – Preciso de um homem – soltou a primeira frase sem que as pessoas que já estavam no elevador (no caso duas moças) imaginassem o que viria depois. Seguiu, mostrando o frasco: – Preciso de um homem para abrir isto aqui. O osso do pulso direito que segurava a água oxigenada era bem grande, como se tivesse se desenvolvido além do necessário por conta do avanço de uma artrose.

Ela insistia: "Preciso de um homem."

Uma das moças não deu a mínima. A outra quis ajudar, mas a princípio não entendeu. Só depois, quando percebeu o frasco nas mãos da senhora. – Ah, pode deixar, eu abro – ofereceu a moça. Pegou a água oxigenada e abriu com esforço – a tampa do frasco estava mesmo dura. A senhora ficou imensamente agradecida. E falou: – Muito obrigada. Estou desde ontem esperando um homem. A moça respondeu: – Mas tem homem fraco que não conseguiria abrir. Acho que isso é um trabalho para mulher. A senhora não deu muita atenção ao que a moça falou e repetiu:

– Estou desde ontem esperando um homem.

A porta do elevador se abriu, e as duas moças saíram. A senhora ficou. Ela subiu novamente para casa, o frasco aberto que talvez fosse usado em algum machucado, já que era de dez volumes, geralmente usado em feridas. Morava sozinha havia vários anos. Não se sabe se algum dia ela morou com alguém. A moça que abriu o frasco ficou com a frase da senhora na cabeça a tarde toda. A cena de uma senhora com um frasco de água oxigenada nas mãos desde o dia anterior em busca de alguém para abrir e repetindo a frase “esperando um homem” era para ela um doloroso retrato da solidão. Resolveu que naquela noite levaria para a senhora um pedaço do bolo que tinha feito. Pensou que um bolo inteiro só para ela demoraria muito a acabar. Logo pensou também que poderia chegar o dia em que ela estaria no lugar da senhora, sem força para abrir um frasco e à espera – de um homem? Espalhou o pensamento e quis abrir os braços na direção do mundo. Ser mais solidária talvez, especialmente no combate à solidão alheia. Não por generosidade. Mas por precaução. Imaginou-se no futuro e teve medo. Que jamais lhe faltasse a força para abrir frascos – foi a oração do dia seguinte.

Por Claudia Nina – [email protected] Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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