Antes de se exilar no próprio quarto, ainda ia à padaria. Todos os dias, de manhã cedo, colocava até cinto e penteava o cabelo, trazia um saco grande de pão. A mulher reclamava porque era só isso: trocava o pijama pela calça social, colocava até cinto, penteava o cabelo e ia comprar pão. Mal sabia ela que era daí para pior.

Com o tempo, a rua foi se estreitando.

Ele não alcançava mais a padaria. Ia só até a caixa de correios e voltava. Trazia a pequena correspondência e espalhava na mesa. Depois disso, voltava ao pijama de sempre. A mulher reclamava, não faz mais nada, não trabalha, vive de renda, homem preguiçoso.

Viviam do dinheiro herdado do pai do homem, que fizera fortuna acumulando imóveis. Trabalhou sempre com muita garra, deixou tudo para o único filho, que achou por bem descansar em honra do pai que nunca tirou férias.

Como não gastava energia, não tinha fome.

Então não comia. Afiapava-se cada vez mais. Os pães que comprava pela manhã eram para a mulher e quem mais se chegasse. Quando não saiu mais do quarto, a mulher enfezou-se, mas os filhos se apiedaram – tinha 65 anos com aspecto de 85. Faziam romaria para visitá-lo. Sentavam-se à beira da cama e puxavam conversa, ele à fina voz respondia. Assim como o corpo, a voz do homem também se afiapava pouco a pouco. Um velho-passarinho.

Pediram que ele não ficasse isolado – tomar sol pelo menos. Tinha saúde aparente, não podia se entregar. Mas ele dizia me deixa, estou bem, venham me ver, oi, menino, falava para o neto que adorava conversar com o avô fiapo. Nem um caldo ralo comia. Às vezes, um copo de leite aceitava assim como um pedaço de rosquinha de baunilha. A filha Noeli era quem trazia. Quanta pena daquele homem que se esmirrava. Menos a mulher, que tinha era muita raiva da indolência do marido.

Um dia, a romaria dos filhos tanto insistiu que não houve jeito: puseram o senhor fiapo na rua.

Ele finalmente saiu.

Mas que tragédia… Assim que colocou os pés na rua, ninguém conseguiu impedir o desastre: uma bicicleta cortou ele ao meio. Espatifou-se o senhor fiapo, que não teve tempo de dar o último sopro.

É que ninguém, nem sequer Noeli, a mais chegada, percebera que o pai não tinha só se afiapado; tornara-se invisível. Não captaram a sua transparência.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

 

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.