Não tinha o hábito de ganhar presentes. Era a filha mais velha de uma família numerosa, e o dinheiro que sobrava nunca sobrava para ela. Então aprendeu a não esperar nada. Nunca – nem mesmo em aniversário ou Natal, quando o presente era sempre algo “espiritual”, como o ensejo para orar em agradecimento pela saúde, por exemplo.

Contava nos dedos as vezes em que desembrulhou um presente. Lembrava-se do doce de leite que uma tia trouxe de Minas na Páscoa e que veio enrolado em um papel de pão. Ela desembrulhara fingindo que havia ali um laço de fita vermelho. Tinha uma imaginação maravilhosa e não ficou triste em não abrir um papel vibrante, porque, em compensação, o doce era só dela, como instruiu a tia. Ela não emprestou sequer uma lambida a ninguém. Comeu tudo sozinha em uma tarde. Era sovina com o que lhe sobrava.

Momento precioso

Um Natal, porém, graças ao rompimento da lógica daquele universo, o pai veio com um presente embrulhado em papel colorido, brilhante e… com um laço enorme! Ela não acreditou que fosse para ela e suas mãos tremularam na hora de pegar.

– Pra você! Guarda com muito cuidado porque é de quebrar.

A menina pegou como se fosse um cristal. As mãos eram desastradas e obedeciam ao comando do resto do corpo aturdidamente confuso aos 12 anos. Todo cuidado era pouco com o presente “de quebrar”. Por fim, depois de meia hora para abrir o presente sem deixá-lo cair, ela não acreditou no que via. Demorou outra meia hora até que as retinas capturassem a imagem: um daqueles enfeites com neve em uma paisagem guardada dentro de uma redoma. Basta sacudir e a neve se espalha como se milhares de floquinhos caíssem de um céu de brinquedo.

Se o presente já era lindo aos olhos de qualquer pessoa, imagine para alguém que nunca ganhava nada. A menina saiu da sala em silêncio porque não queria dividir o momento com ninguém. E também não queria correr o risco de deixar que quisessem ver com as mãos seu presente tão inacreditado.

Neve na noite

Foi para o quarto dos fundos da casa, onde certamente não toparia com nenhuma alma, sobretudo no momento em que disputavam o melhor pedaço do pernil. Sentou-se na velha poltrona e ficou alguns minutos alisando a bola de vidro-neve. Chacoalhou e chacoalhou, queria fazer uma pequena tempestade cair sobre os telhados da casinha aprisionada. Brincou com seu presente com uma alegria inédita.

Até que um sentimento brutal tomou conta do seu coração. Ela sentiu muito medo de perder o objeto mágico. Era “de quebrar”, qualquer movimento em falso dela ou de alguém poderia facilmente despedaçá-lo. Foi então que, depois de muito pensar, tomou uma decisão radical. Seria melhor assim. Sofreria menos.

Levantou-se da poltrona e subiu no banco em frente à janela que dava para o quintal. Como a casa era um sobrado, o chão ficava a uma distância de duas ou três alturas de um adulto. Ela planejou com detalhes o atentado. Mirou o chão de ladrilho vermelho e jogou com força seu primeiro presente de Natal desembrulhado. Viu quando ele se espatifou no chão em mil pedaços. Os flocos de neve voaram pela noite como se estivesse, de fato, nevando no quintal.

A menina ficou observando a morte em silêncio.

Se era para sofrer, que sofresse logo. Que ela comandasse o fim daquela alegria imensa – se esperasse o tempo, que tudo desfaz, quebra e estilhaça, poderia sofrer em dobro porque seria pega de surpresa. Dormiu ali mesmo na poltrona do quarto dos fundos. Aquele Natal já tinha lhe dado o que de melhor poderia lhe dar. E isso bastava.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

 

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.