A pequena casa de dois quartos não seria motivo de tristeza para a menina se ela não estudasse em um colégio onde as crianças tinham quartos maiores do que a sala dela. Todos os dias, pegava a condução compartilhada com seis e saía do subúrbio para a escola que ficava muito longe. Quase uma viagem. Ela precisava almoçar às 10 da manhã: “Comer e se coçar basta começar.” Era a ladainha da mãe para quem as reclamações da filha eram inúteis. Tinha que ser assim e pronto.

O que a mãe não sabia era que no secreto havia humilhações. Se a menina já tivesse forrada de vida, teria coragem de crescer na frente das supostas amigas de sala, que orbitavam uma realidade distante da vida-rotina da menina; eram crianças que tinham pais e mães viajantes, conheciam a Europa, andavam de carros enormes com motorista. O que ela fazia em um colégio daqueles? Os pais achavam por bem que a melhor educação era aquela. Economizavam em tudo para que no fim do mês o dinheiro da escola cara fosse respeitado.

Uma casa cheia de perguntas

Mas. Se a menina tinha uma tristeza na vida era por (não) pertencer àquela escola. E por receber doses diárias do que ela ainda não sabia que eram humilhaçõezinhas por parte das amigas, que riam da profissão do pai dela – “ele trabalha com aquele boné nas construções, hahahahahahahaaha”, era a voz da Inês, pedante e imensa, que controlava o grupo como uma comandante de tropa. E todos riam. A menina não sabia onde estava a piada. O pai dela era engenheiro – onde estava a graça?

Um dia, o grupo perverso combinou de fazer um tour pela casa da menina, que não entendeu a ironia e arrumou tudo: pediu para a mãe comprar almofadas para a sala. Não atinou que nada do que fizesse naquele minimundo seria grande o suficiente para a tropa. E as “amigas” chegaram. Olharam tudo como se fizessem uma inspeção. A menina estava com a sandália nova, que tinha um saltinho. Pelo menos nos pés estaria forte. A mãe estava na cozinha fazendo o almoço. Algo que elas também desconheciam porque quem fazia comida eram empregadas.

Depois que inspecionaram, saíram. Encheram a casa de perguntas. A menina só respondia como se estivesse completando um questionário.

– Você não tem um quarto só seu?

Sonhando com espaços

Não, não tinha. Inês, malvada e gigante, tinha cravado no coração da menina a pior pergunta de todas. Tudo o que ela mais queria na vida era um quarto só dela, um espaço em que pudesse escrever seus diários sem ser investigada pelo irmão menor. Mas a casa era pequena, aquilo seria um sonho. A menina sonhava com espaços…

Resolveu pedir ao pai que tentasse de alguma forma fazer um quarto para ela – a presença da tropa despertou na menina o desejo de lutar. Tanto fez que o pai teve a ideia. Subiria uma parede de tijolos para fazer um mini-quarto para cada um dos filhos. A menina ficou radiante. Mesmo sendo mínimo, esquálido e com espaço para uma cama e um guarda-roupa, já era melhor do que nada.

O quarto ficou pronto a tempo do Dia das Crianças. Ela comemorou com seus amigos invisíveis, os mesmos que os adultos chamavam de “imaginários”. Que nada, não eram imaginários. Existiam de fato. E eram leves, alegres e amigos de verdade.

Invisíveis eram a tropa. Pobres, achavam que existiam.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

 

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.