Quem o visse de longe já antecipava a esquisitice. Não havia a necessidade de chegar perto para saber que o homem cheio de métodos era um bizarro. Os filhos, que viviam metade do tempo com a mãe depois da separação, aprenderam a crescer com este conhecimento de causa: o pai era estranho. Mas era um homem bom, trabalhador.  Seu refúgio era a enorme biblioteca da casa, que começava na cozinha e se espalhava pelos quartos. Os livros não paravam de chegar porque todo dia o homem comprava novos – e também ganhava, pois muitos sabiam que ele aceitava doações. Nenhum livro era rejeitado na casa de papel, a menos que fosse repetido. Os duplos ele passava para a frente, era generoso. Deixava em escolas para aumentar as bibliotecas.

Uma casa de papel

Ele morava numa biblioteca – literalmente. Fazia suas refeições em meio aos livros. Seu corpo era quase uma extensão das páginas. Ele e os livros se confundiam. E foi cada vez mais estreitando os limites. A ponto de quase não sair de casa. A aposentadoria tão desejada foi o momento-chave: ele passou a viver socado nos livros, lendo e relendo os títulos antigos, saboreando os novos. Não havia nada mais no mundo a fazer.

Detestava Natal e todas as datas comemorativas. Era ateu, mas não deixava que os filhos soubessem disso porque achava ser a descrença absoluta uma falha de caráter. No fundo, queria acreditar em alguma transcendência, mas não conseguia. Nenhum livro foi capaz de lhe explicar o mistério de uma estrela, e ele decidiu creditar tudo ao acaso. Ele mesmo era um acaso que logo iria desaparecer.

Não sabia a data do aniversário por esquecimento proposital. Além dos filhos, tinha dois amigos que lhe presenteavam com livros. Nada diferente era do agrado e isso ele fazia questão de frisar. Mas não queria que lhe lembrassem de nenhuma data. Melhor assim, festejar o quê? Não que fosse pessimista. Só não entendia o motivo das festas.

Debaixo de livros

Tão pouco achava ser ele uma pessoa capaz de despertar amizade. Não fazia questão de nada. Que o deixassem quieto, sentado na poltrona de sempre, imerso em seus livros. Saúde boa, corpo franzino, não bebia, não fumava. Poderia viver 100 anos.

Mas.

Um dia, ainda com idade para viver uns 30 anos bem vividos, ele estava arrumando uma de suas estantes, quando lá do alto um volume pesado, talvez fosse O quixote, caiu bem na sua cabeça sem que ele conseguisse escapar. Foi um golpe certeiro. O livro assassino. O homem morreu ali, deitado, entregue para sempre a seu labirinto de papel.

A vida tem seus “acasos” cheios de mistério.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

 

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.