Antes de começar a andar de um lado para o outro no pequeno corredor de um dos andares do prédio comercial, à frente dos elevadores, ninguém diria que ela não fosse uma senhora capaz de chegar sozinha na própria casa. Afinal, qual é a cara de quem não sabe chegar sozinho na própria casa? Estava vestida como quem vai normalmente ao mercado, nada sobressaía na aparência, era uma senhora comum. Sim, era dona de seus passos.

Até o momento em que os passos seguiram um roteiro independente, e a senhora começou a refazer idas e vindas no espaço do corredor. Não era o movimento de uma abelha louca e sem rumo. Era uma linha traçada de um extremo a outro, os olhos na direção do horizonte da parede. Os que esperavam o elevador talvez estivessem ocupados demais, ilhados, e não perceberam nada. Afinal, o que havia de estranho em uma senhora ir e vir no corredor de um elevador? Poderia estar dando voltas e isso seria talvez um hábito ou puro tédio em ficar parada esperando.

A velha ia e vinha. A linha reta e obstinada, nos fundos do corredor. Talvez nem ela estivesse percebendo que havia algo de errado em seu maquinário.

A percepção demorou quase meia hora ou mais.

Houve por fim uma hora em que ela disse:

– Estou no labirinto.

O mais viável fosse dizer que ela estava com labirintite, pois parecia tonta – não se sabe se a tontura a fez ir e vir ou se as idas e vindas a deixaram tonta. Só que ela disse:

– Estou no labirinto.

Continuou em seu labirinto particular até que, por fim, conseguiu não se sabe como segurar uma corda invisível e sair do corredor. Entrou no elevador aliviada. Para onde iria? Continuaria presa a pequenos labirintos rua afora?

Ninguém a seguiu para saber se tombou em alguma esquina ou se continuou segurando a corda invisível. Ninguém testemunhou se aquela era, de fato, uma pessoa capaz de encontrar sozinha o caminho de casa. É provável que tivesse entrado no parque em frente ao prédio e se perdido por lá até o anoitecer.  

A velhice pode ser um labirinto.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.