Estava ali, pronta, do alto de seus 7 anos, mochila gigante nas costas e pasta grossa debaixo do braço, de frente para a escadaria que dava para a primeira série do colégio-mundo. Adeus aos bonecos coloridos do recreio de areia, merendeira, volta para casa a pé, passar na mercearia? Nada de chocolate no caminho. Não faria falta. Ela estava pronta para o começo de um momento novo: a passagem.

A mãe não a largara – estava à espera de que a menina se entregasse inteira ao desafio e conseguisse subir até o topo. De lá, a filha por certo acenaria um tchau, e a mãe poderia voltar para a casa, despedindo-se para sempre da primeira infância. Já no primeiro dia do colégio-mundo, a mãe sabia que a filha que tomaria nas mãos de volta seria outra pessoa.

A menina estava na primeira fileira e, atrás dela, uma dezena de crianças da mesma idade olhavam estáticas para a escadaria. Ninguém tinha coragem de subir. Eram todos alunos recém-chegados ao colégio-mundo e temiam o desafio da passagem. No fundo, sabiam que dali para a frente seriam outras pessoas e talvez não estivessem preparados ou não quisessem se despedir deles mesmos.

A menina no meio daquela pequena multidão aflita. Mas não estava aflita, pelo contrário. Estava radiante com o futuro de um espaço maior, quanta coisa a ser explorada, ela era toda uma excitação que não cabia dentro dela. Resolveu disfarçar o contentamento porque ninguém ao redor lhe fazia refrão.

O tempo passava, e a aflição crescia. Em breve, o sinal ia tocar e não haveria mais espera – era subir ou subir. A menina não queria perder o primeiro dia especial. Já tinha vestido o pensamento com a melhor roupa. E uma emoção brilhante cintilava – dava para ver de fora, parecia um vaga-lume.

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Até que não dava mais para esperar. A menina olhou ao redor e viu que as demais crianças continuavam no mesmo tom. Umas choravam, agarravam-se nas mães. Ela decididamente não iria repetir esse gesto que, para ela, não tinha sentido.

Foi então que tomou a decisão mais importante de sua vida. Resolveu liderar a subida. E disse: eu vou. Desfez o laço com a mãe, despediu-se sem muita euforia, ajeitou a pastinha debaixo do braço, ergueu a cabeça e foi na direção do topo. Para surpresa da mãe, ela não olhou para trás para ver que sua decisão tinha acelerado a decisão das outras crianças e todas, uma a uma, seguiram o rastro.

Para sempre sua história foi recontada. O dia em que a menina foi em direção ao topo. Mal sabiam todos que a vida inteira foi assim: só mudaram os degraus. No fundo, ela tinha dentro dela uma certeza abafada de que talvez sua vinda ao mundo tivesse algo a ver com aquele primeiro desafio-liderança. Ajudar a quem tem medo de vencer.

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.