Era impossível que aquele homem, além de lindo, pudesse ter coisas interessantes a dizer – até que tinha. Gostava de ouvir as histórias dele, enquanto observava a combinação de músculos e tatuagens na perna. Fazia uma figura tão bonita no mundo que ela poderia passar as tardes olhando e ouvindo – um quadro falante.

A convivência durou. Era um acontecimento a chegada do homem. Tinha ainda um queixo quadrado que era talvez mais importante do que os músculos. Ela não se aproximava de homens com rostos muito finos. Não sabia o motivo, mas não conseguiria ter nenhum relacionamento com homens assim – ela os expulsava de seu quadrado mais íntimo, nem adiantava prosseguirem um passo.

O homem lindo, de músculos, tatuagem na perna, queixo quadrado – e, além de tudo, divertido – era um acontecimento capaz de durar algum tempo. Aos 30 anos, ela não sabia o que queria da vida em termos de relacionamento, então as expectativas eram zeradas e o que viesse de bom estava no lucro. Tudo ia fluindo. Ele era divertido sem ser chato. Coisa rara. Quem diverte geralmente é chato, cansativo ou piadista. Ele não. Conseguia contar casos e fazer rir sem que ela se cansasse. Ela creditava a capacidade do rapaz a uma forma de inteligência. Os meses se passaram e conseguiram até alcançar o tempo de anos.

Só que… Um dia, o erro fatal.

No meio da animada conversa, o homem lindo cravou um acento agudo na palavra “ledo” para dizer um terrível “lédo engano”. A palavra ganhou um parentesco com as éguas e seus assemelhados com os “és” abertos… Ela não sabia por onde começaria a mexer na frase para desfazê-la, tirá-la dos ouvidos. Não conseguiu. Ele repetiu duas vezes, então o erro era mesmo consciente. O homem lindo falava a palavra “ledo” como se tivesse um acento aberto no “e”.

Tratou de providenciar o término daquela convivência nas semanas seguintes. O homem lindo virou um desmoronado. Ela pensou: ele deveria cuidar das palavras tão bem como cuidava do corpo… Tinha recursos para isso. E por que não fazia? Porque não dava à palavra a importância que ela merecia. Era melhor que tivesse rosto fino.

A mulher sem nenhuma paciência seguiu em frente porque tinha muita coisa a fazer na vida e não queria perder tempo – ah, ele era tão divertido… Que pena. Mas esforço em ouvir “lédo engano” e seguir com a expectativa de ouvir outras vezes “lédo engano” exigiria dela uma nobreza oculta que ela não possuía.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.@rdeditorial

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.