Alessandra era o nome dela. Chamava a atenção da outra menina, da sua idade, recém-chegada ao colégio, não por causa dos cabelos enrolados (inveja 1) ou da calça jeans justa que ficava incrível nela (inveja 2). Alessandra toda a semana tinha nas mãos um livro diferente, que, de fato, era lido (inveja 3).

A menina, a outra, que não tinha cabelo enrolado, não conseguia vestir bem nenhuma calça jeans no mundo, tão pouco lia livros a não ser os de obrigação. Tinha 11 anos e meio, e via em Alessandra o ideal de mulher a ser copiado. Quando crescesse, seria parecida com ela! Como a menina tinha pressa, queria crescer logo. No cabelo talvez o papelote desse jeito. A calça jeans seria um problema, mas em breve ela perderia a barriga infantil – a dificultadora de todos as tentativas de se vestir como uma garota da sua idade. Entendeu de súbito que a barriga talvez fosse uma proteção entre ela e o mundo, entre ela e as pessoas. Se emagrecesse, de alguma forma as pessoas chegariam mais perto dela, mais perto de seus ossos e entranhas – era preciso ter coragem de permitir isso.

Mas e os livros? Como fazer para se interessar tanto por livros quanto Alessandra?

A vontade de ler foi um contágio. Na verdade, a “doença” já estava dentro dela. Faltava apenas iniciar a contaminação boa, e a presença de Alessandra foi o start.

Em uma segunda-feira de inverno ensolarado, a menina chegou ao colégio com um livro de Érico Verissimo – Clarissa – e depois outro e mais outro… Começou a gostar muito de ler coisas novas e não só os livros de obrigação. Seu visual de mundo tornou-se, como almejou no dia que viu Alessandra, uma mulher com um livro na mão – que realmente era lido…

Um dia, no aniversário da menina, Alessandra deu a ela um presente:

– Me dá aquele seu caderninho de pensamentos – pediu Alessandra. Quero te escrever uma coisa.

A menina entregou-lhe o caderno que trazia sempre na mochila.

Alessandra escreveu um poema. Era “Cantiga para não morrer”, de Ferreira Gullar, que começava com os seguintes versos: “Quando você for embora,/moça branca como a neve,/me leve.” Algo absolutamente inesperado, emocionante.

A menina estava prestes a se mudar da cidade, e Alessandra sabia disso. A passagem por aquele colégio foi só um lampejo. Ainda bem que, no breve meio tempo, entre uma forma de vida e outra, entre o final da infância e o começo da adolescência, ela começou a se tornar a mulher que gostaria de ser, inspirada na colega de sala.

E por toda a vida continuou sendo alguém que gosta de ganhar versos de presente…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.@rdeditorial

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.