Vestiu-se com a esperança de que a noite não se perderia inteiramente. Escolheu o vestido branco, comprido, novo, que ainda ignorava o destino de doação. Acreditava que as coisas tinham uma incrível capacidade de absorver a memória de acontecimentos, como se os tecidos – a fibra profunda – escondessem em seus poros sensores inteligentes de captação de imagens-lembranças que, obviamente, trazem incorporados sentimentos, bons ou maus. Aquela noite não merecia a lembrança de tecido algum.

A bolsa verde ficaria perfeita, a mesma que também seria doada. Não queria olhar para a bolsa e se lembrar de como tinha sido ridícula achando que o visual poderia salvar sua participação nula em uma noite para a qual o convite a incluíra apenas por obrigação. No fundo, ela sabia disso, mas insistiu em ir – para salvar o resto do casamento ou para salvar a sua própria reputação. Ser invisível estava lhe causando a pior das dores.

O marido foi na frente porque saíra do trabalho que era perto do restaurante. Ela saiu correndo do trabalho e ainda passou em casa para ver as filhas pequenas que tinham ficado o dia inteiro sem os cuidados dela. Vestiu-se e se maquiou levemente para não parecer preocupada demais com a aparência mesmo que ninguém a notasse. Ninguém a notou. Ela chegou ao local e todos os convidados já estavam lá. Todos médicos – as esposas também médicas.

O que ela fazia ali?

Sentou-se. O marido foi verniz. Os demais idem. Aquela saudação superficial, perguntas sem sentido. A resposta dela nem era ouvida. O que ela dizia morria no ar antes de chegar ao outro lado da mesa onde os que perguntavam já estavam entretidos com outros assuntos.

Os assuntos se alinhavavam por uma palavra: doente. Cada qual falava uma história do “seu doente”, como se as pessoas e suas moléstias, graves ou não, pertencessem de fato aos médicos. Ela não entendia por que tanto apreço pela palavra “doente” e nunca se referiam às pessoas pelos seus nomes.

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O fato é que eles seguiam nos seus alinhavos ignorando completamente a presença dela, sem ao menos dirigir-lhe novamente a palavra. Ela, claro, emudeceu para sempre.

Aquele foi o último jantar da vida do casamento. A noite reveladora.

Ao chegar em casa, embrulhou o vestido e a bolsa. Meteu um pijama e sumiu na cama. No dia seguinte, faria suas doações.

Ser invisível não era um destino.

Depois pensou que talvez eles todos estivessem mais doentes do que os doentes que tinham donos

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
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Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.