Morava sozinha em um pequeno apartamento depois que o marido morreu e os filhos, em bando, sumiram. Não de fato. Visitavam às vezes, mas isso não quer dizer que aparecessem. Os almoços fartos eram história. Agora ela fazia as refeições sozinha, requentando mil vezes a sopa de ervilha. Até que gostava. A família inteira dava muito trabalho, já estava exausta. Oito filhos foi um exagero, o casamento imposto pelos pais aos 15 anos. Dizia ter sido obrigada a se casar. Mas o que ninguém nunca explicou é como a irmã, apenas um ano mais nova, conseguiu se livrar da obrigação.

Uma viúva feliz

Naquela manhã, ela estava comendo pão com manteiga mastigado com muita calma porque a dentadura estava com defeito. Molhava o pão no café com leite. Era um processo lento e degustado – as refeições em liberdade, sem nenhum marido para atormentá-la. Uma viúva feliz. Pouco dinheiro, é verdade. Ela até queria repetir a excursão para Raposo, foi bom, fez amizade, mas não tinha recursos.

Bem no meio da manhã, a campainha tocou.

– Quem é? – perguntou, lá da cozinha, preguiça de se levantar e não ser ninguém, os garotos do vizinho adoravam dar trotes.

– É o gás.

A senhora achou que, sim, realmente estava esperando o moço do gás. Só que não estava. E abriu a porta.

A figura misteriosa

O homem entrou. Percorreu toda a casa, fez perguntas várias, a senhora adorava um bom papo, que moço simpático. Ela sempre foi de conversa, a mais comunicativa da família truncada, o marido, então, parecia de cera. Que falta fazia a ela quem soubesse conversar. Ele entrou, vasculhou aqui e ali, e foi embora.

E o gás?

Só depois que a senhora fechou a porta, percebeu a estranheza: o homem não trazia nenhum botijão. Ela tão pouco tinha gás de botijão em casa.

Não era o homem do gás.

Mas quem era, afinal?

A senhora adorou o mistério.

A filha não teve coragem de dizer à mãe que poderia ser um assaltante. A senhora não atinou. Como era comunicativo aquele rapaz. E que falta lhe fazia uma boa conversa.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

 

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.