Eram meses de preparação para as férias na casa da avó. Ela, menina de família pequena na grande cidade, mudava-se durante três meses para uma família grande na cidade pequena. Ela adorava a confusão de tios, tias, primos e primas, todos misturados na algazarra. Só de se misturar naquela multidão já estava bom, mas ainda tinha os lanches na casa de doce e os almoços de domingo, lasanha e torta de pêssego.

Era uma alegria miúda, que se estendia por todos os meses das férias. Quando entrava dezembro, ela achava que a euforia nunca ia ter fim. Preferia acreditar que as aulas não recomeçariam nunca; odiava o colégio.

Só que tudo acaba.

E março sempre avançava na direção do fim.

Era sempre uma tristeza imensa quando chegava a hora de entrar novamente no Fusca amarelo e voltar para a família pequena na cidade grande. O abafamento no carro aumentava a saudade do ar fresco que soprava na casa da avó, que tinha dois quintais abertos para o mundo.

Um dia, inconformada com o destino, resolveu fazer um afrontamento. Roubou a escova de cabelo da avó. Nunca soube o motivo de ter escolhido justamente a escova. Demorou para entender o motivo do roubo em si.

Sem ninguém perceber, enfiou a escova na bolsa cheia de quinquilharias, as mesmas que demoravam meses para serem devidamente preparadas para a viagem.

Foi embora então um pouco menos triste.

Logo a avó começou a reclamar do sumiço da escova. Logo seu roubo foi descoberto… Mas só foi entender a razão da pequena loucura quando a mãe lhe explicou o motivo.

– Foi para amenizar a saudade…

O entendimento lhe caiu como uma iluminação. Sim, ela precisou “roubar” uma parte do cenário daquela casa para se lembrar de que o calendário era algo que se repetia, e as férias voltariam novamente.

Ela, que tinha propensão ao esquecimento.

Novos “roubos” de saudade aconteceriam de outras formas…

Já que não se pode guardar pessoas nem pedaços de vida para sempre.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.