Vestiu-se com seu uniforme preto e colocou um chapéu. O primo estava lá para carregar os apetrechos até a sala, era o assistente que todo mágico tinha que ter. Enquanto organizavam os detalhes do show, o grande homem e sua visita não imaginavam que seriam interrompidos pelo pequeno homem e seu primo dentro de minutos. A mesa estava regada a uísque; espalhadas aqui e ali pequenas porções de azeitona e amendoim.

Era assim toda vez que tinha visita.

Solenemente, avançaram o pequeno homem e seu primo, carregados de magia até o pescoço. Seriam vários truques, tinham ensaiado o show a tarde inteira.

Quando entravam na sala, a conversa entre o grande homem e a visita foi aos poucos se esburacando. A interrupção. Os mágicos invadiam um terreno proibido, mas seriam agraciados com festa. Era a alegria, a inocência tomando conta do mundo hostil e sem graça daqueles dois adultos.

O toque de graça desfaleceu antes de acender.

Quando o grande homem percebeu a invasão, imediatamente interrompeu a entrada dos pequenos mágicos com a mão grande e a voz de trovão, entre o deboche e a indiferença: “Agora não.”

Os dois não tiveram sequer tempo de mostrar a que vieram, os apetrechos de mágico nem puderam revelar as surpresas que, dentro das caixas de brinquedo, escondiam. Os mágicos não disseram nada.

Estavam envergonhados demais para reagir.

O primo, que não pertencia àquela casa e estava ali só de passagem, riu. O pequeno homem, no entanto, não deixou ninguém ver, mas a mínima lágrima escorreu. O que o grande homem na sala nunca pôde adivinhar era que, a partir daquele exato momento, uma veia interna se abrira e para sempre o afeto do pequeno homem deu lugar ao desencanto. E, depois de grande, o desencanto facilmente se transformou apenas em compaixão… Nada mais.

Porque existe um momento fatal em que um afeto pode desaparecer para sempre.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.