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Publicado em: 1 de agosto de 2021

Os braços da memória e um corpo ausente

A memória que surgia daqueles guardados parecia ter vários braços e ela se sentiu de repente presa a cada um deles.

Imagem: macniak/iStock

A tarefa era simples. Recolha tudo o que te interessar, separe o que você gostaria de guardar – a orientação da mãe, que ela prontamente obedeceu. A volta à casa do pai era simples ou assim deveria ser. Não havia mais ninguém, nem corpo, nem cuidadores, nem remédios. O quarto, que antes era escuro e entulhado, estava arejado, iluminado e arrumado. Impecável. A sombra do cenário de antes persistia, mas a filha queria se concentrar no que via naquele momento – janelas abertas e organização. Nem cheiro de remédio ou doença. Ninguém deitado, o sofá-cama recolhido, sobre o qual pousavam apenas almofadas coloridas.

A busca começou. Ela abriu gavetas e armários. A partir daí, o que era simples ficou difuso, dolorido. Nada seria simples. A memória que surgia daqueles guardados parecia ter vários braços e ela se sentiu de repente presa a cada um deles. Não havia como se libertar. O diploma de Engenharia, os documentos, um grampeador. Uma lupa. Não pôde prosseguir. Fechou gavetas e armários.

Aprisionou os braços da memória que poderiam levá-la para dentro de um tempo perdido.

Saiu do quarto e andou pela casa vazia. Achou tudo tão limpo, tão reluzente. Encostou no sofá na sala e se lembrou de que a última vez que viu o pai ele estava de pé, ali, enquanto ela ia embora. Talvez ele soubesse da morte próxima, por isso, com muito custo, tenha se levantado até aquela beirada de sofá para vê-la partir antes que ele partisse.

Voltar àquela casa não era nada simples.

E remexer nos guardados em busca do que ela quisesse ficar para ela, muito menos. Percebeu que abrir as gavetas era como reconhecer o corpo – pedaços de um corpo ausente. Ela não queria reconhecer nada para que ainda sobrasse a sensação de que a morte nunca existira.

O sopro que sentiu naquela casa reluzente talvez fosse a certeza disso.

Saiu da casa levando na memória fresca e ensolarada a imagem do pai de pé, perto do sofá – era o que levaria. Tudo o mais continuaria guardado nos braços de um tempo aprisionado.

POR CLAUDIA NINA [email protected]

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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