Estavam se arrumando para um passeio noturno na orla. Era férias em Cabo Frio, e a menina simplesmente amava andar a esmo passando pela feirinha e (não) comprando as quinquilharias que adoraria comprar se tivesse dinheiro. O pai não dava nunca nada para ela fora do roteiro. As férias eram o momento em que ela mais pensava em quando teria seus próprios recursos para poder escolher do mundo aquilo que teria na estante. Demoraria ainda tanto…

Cada um se arrumava num canto do pequeno apartamento das férias – emprestado da avó. O irmão era o primeiro a ficar pronto, era quase sempre o mesmo short bege com a camisa marrom. Ele só usava estas cores, além do branco e do azul escuro. Talvez por implicância ou porque aquela monotonia cromática lhe dava nos nervos, a menina era o oposto: misturava o que tivesse no armário – e sua cor favorita era o roxo.

– Vou querer pintar meu quarto de roxo! – decidiu um dia, mas logo viu desfalecer seu desejo quando o pintor chegou com o latão de tinta pálida.

Vestindo-se de criatividade

Ela estava no quarto minúsculo da avó se arrumando. Estava tão animada para sair que faria uma composição colorida com as roupas que havia levado. Adorava se vestir de roupas diferentes, pena que o armário oferecia poucas opções. A mãe dizia que ela estava crescendo, o que justificava quase não ter roupa e só dois vestidos – o azul e o amarelo. Precisava usar muita criatividade.

Naquela noite, lembrou que havia levado o chinelo de várias cores que a avó tinha lhe dado no Natal – era de borracha, sola grossa, com tiras coloridas.

Calçou o chinelo, mas sentiu que faltava dar mais ênfase. Então enfiou meias. Gostou do estilo. O vestido seria o azul, que ela completou com um casaco vermelho – fazia frio na orla. Só que ainda não estava tão enfática quanto gostaria. Lembrou-se de que havia o boné amarelo da praia – achou que combinaria com a ideia do passeio. Então lembrou-se do vento, que talvez levasse seu apetrecho para bem longe. Insistiu mesmo assim. O toque final foi o guarda-chuva de flores cor-de-rosa. Ela amava aquele guarda-chuva quase sem serventia – ganhara havia mais de 6 meses e não estreara. Então, pensou: na orla faz frio, quem sabe até chuvisca? Não se lembrou de pensar que já estava de boné.

Passeio das cores

Pronto. Saiu do quarto, sentindo-se enfim linda e colorida.

Ninguém prestou atenção nela até o momento em que…

Quando desceram, assim que colocaram o pé na rua, o pai olhou bem para ela e reparou na produção. A mãe tinha visto, mas talvez tenha pensado que uma mulher só encontra seu estilo quando tem permissão para o excesso.

O pai, no entanto, ponderou:

– Ah, não. Guarda-chuva, boné, chinelo e meia… Tira pelo menos a meia!

E a frase “tira pelo menos a meia” ficou para sempre na família. Ecoou por séculos dentro dela. Foi dureza tirar a meia que dava tanta ênfase ao chinelo. Aceitou e enfiou a meia dentro da bolsa. Sim, além do guarda-chuva, ela havia pendurado no outro braço uma bolsa… a linda bolsa verde que ela amava.

Esta história realmente aconteceu. Eu não tinha muitas opções de roupa, mas adorava me vestir de acordo com meu humor. E naquela noite eu estava muito feliz.  Mas agradeci ao toque de graça do meu pai que me ensinou um pequeno senso de equilíbrio naquele instante.

 

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.