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Publicado em: 10 de janeiro de 2021

Quando cortar a cabeça é preciso

Não teria como se desfazer de todo o resto. O vazio poderia ser pior.

Imagem: YurolaitsAlbert/iStock

Foi uma semana bem dolorosa, o tempo mais difícil desde que havia tomado a decisão acertada da separação – saia, não volte. Naquele momento foi fácil, três palavras deram conta de uma sentença definitiva: SAIA, NÃO VOLTE. O tempo que seguiu não foi fácil, pelo contrário, foi uma tormenta ter que olhar para os objetos e móveis, as roupas que ainda restaram como se vestissem fantasmas.

O movimento de fazer sumirem os objetos e os móveis foi lento. Não conseguia se desfazer de tudo ao mesmo tempo, até porque a casa viraria um deserto total – sem a pessoa dele e ainda sem os móveis. Aguentou. Mas as roupas se foram, claro, e levaram junto os fantasmas vestidos.

Na lenta decomposição da antiga casa, desmontou peça por peça como em um jogo de quebra-cabeças ao contrário. Teria que desfazer a imagem que era o mapa onde estava desenhada a figura de ambos.

Os móveis da casa eram os pedaços que jamais se juntariam.

Livrou-se do que mais a incomodava, o que lhe trazia lembranças das peças do quebra-cabeças que ela queria desfazer, como a cristaleira e os lustres, o sofá da sala, os armários que durante uma década acomodaram as roupas dos fantasmas e, principalmente, uma poltrona onde ele sempre se sentava à noite.

Não teria como se desfazer de todo o resto. O vazio poderia ser pior. Restaram então algumas peças que, juntas, não formavam imagem nenhuma.

Até que um dia percebeu. Sim, havia uma peça que precisaria sumir com urgência: a cabeceira da cama! Como chegou a pensar que poderia continuar vivendo com o ranger daquela cabeceira, que era uma peça-chave da imagem que desmontava?

Foi então que ordenou o corte daquela cabeça definitivamente.

O colchão ficaria livre e silencioso nas noites de paz.

Cortar a cabeça, o ato final.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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