Envelhecia com os olhos voltados para o tempo em que, bem jovem, pulava o Carnaval – isso nos poucos anos de liberdade que lhe restaram antes de os pais cismarem de casá-la com o moço herdeiro dos quarteirões.

Apesar da nostalgia, envelhecia bem, ainda feliz, especialmente depois que o marido decidiu viver deitado e passou a se recusar a sair de casa. A mulher experimentava uma espécie de viuvez abstrata que ela tratou de sentir como definitiva. Depois de cinquenta anos de casamento, a liberdade de volta. Viagem em excursões, adorou Raposo.

Até que numa manhã acordou com os olhos cinza.

As malditas cataratas a atacaram nas duas vistas ao mesmo tempo. As cirurgias estavam começando no país. Nem sempre eram bem-sucedidas, mas não havia escolha – era arriscar ou arriscar. A cegueira em breve. Foi então que decidiu fazer, era corajosa.

s malditas cataratas a atacaram nas duas vistas ao mesmo tempo. As cirurgias estavam começando no país. Nem sempre eram bem-sucedidas, mas não havia escolha – era arriscar ou arriscar. A cegueira em breve. Foi então que decidiu fazer, era corajosa.

O pior aconteceu. A cirurgia não deu certo, e ela ficou sem enxergar de um olho. O outro, ensombrado. Quase em trevas, era o fim da pouca liberdade.

Demorou vários anos até fazer a segunda cirurgia. E se não desse certo de novo?

Seria o mergulho definitivo na escuridão.

Mas a técnica já tinha evoluído e, finalmente, a segunda operação deu certo. E a senhora passou a enxergar de um olho só. Viveu com alegria aquela primeira semana de claridade e tomou até sorvete.

No entanto, durou pouco o otimismo com o olho bom. Logo caiu em depressão, lembrando-se de que havia o olho escuro. E passou a se concentrar só nisso: no lado escuro, no que não conseguia enxergar, em vez de se lembrar que havia a claridade ao lado. A tristeza foi crescendo tanto que tomou forma de gente e se sentou perto dela para sempre. Ficaram unha e carne. Um dia a senhora desistiu de vez de ser feliz e mergulhou a alma no esquecimento. A única lembrança era o próprio nome.

Foi encaminhada a uma clínica de idosos esquecidos, uma espécie de depósito – o marido também experimentava a viuvez abstrata. Eram agora invisíveis um para o outro.

E a senhora não tinha mais nem como se lembrar do Carnaval.

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Esta história tristemente real pode ser uma metáfora da velha história do copo meio vazio ou meio cheio… Que a experiência alheia seja sempre um alerta para nossos olhares de mundo. O otimismo é uma claraboia.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.