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Publicado em: 20 de dezembro de 2020

Uma ceia de Natal inesquecível

A mãe agradeceu pelo milagre, pelo sorriso das filhas e pela paz de vê-las brincando, alheias ao mandamento da tristeza.

Imagem: Cunaplus_M.Faba/iStock

Durante anos, foi incapaz de entender o choro da mãe, com a cabeça baixa, a mão encostada na máquina de lavar da pequena cozinha enquanto ela e a irmã na sala comiam ovo mexido.

– Mãe, não vem comer? É Natal.

A mãe bem que tentou, mas não conseguiu enxugar o choro, especialmente quando entrou na sala e viu as duas meninas comendo o ovo. Sentou-se à mesa e afundou o rosto no peito. Ver que as meninas sorriam, alegres, sem ter a menor ideia de que deveriam também estar chorando era uma cena triste demais.

As meninas não perguntaram o motivo do choro, talvez porque imaginassem que Natal é assim mesmo, época de mais emoção.

Talvez porque, secretamente, embora sem capacidade para entender o secreto, soubessem que elas também deveriam estar tristes e que comer ovo mexido no Natal era um sinal de pobreza – deveriam saber disso. Será que não sabiam? Ou fingiam que não sabiam? Ou sabiam e não se importavam?

Comiam, riam, brincavam, comiam, rasparam o prato, beberam todo o guaraná. Deixaram depois largados os garfos, como sempre, saíram da mesa para brincar um pouco antes de dormir. Ela virou e deu de cara com os olhos da mãe, que ainda chorava. Parecia um choro eterno capaz de durar até o próximo Natal. Ainda sem entender aquele choro, juntou-se à irmã. Brincar era mais divertido do que continuar tentando decifrar o mistério daquele choro. Será que alguém tinha morrido e a mãe não avisou?

Depois de alguns muitos minutos, a mãe se levantou da mesa, recolheu os pratinhos vazios. Na pia da cozinha, na hora da louça, levantou a cabeça na tentativa de fazer o choro secar, engolindo com força as lágrimas. Naquele súbito, a mãe pensou que talvez aquele fosse o milagre do Natal – o milagre da não percepção da tristeza de não se ter nada além de ovo mexido na ceia do Natal.

Então, a mãe agradeceu pelo milagre, pelo sorriso das filhas e pela paz de vê-las brincando, alheias ao mandamento da tristeza.

O milagre durou toda uma infância.

A menina que sondava o mistério do choro da mãe naquela ceia inesquecível só percebeu, finalmente, o motivo do choro quando virou adulta, mas aí já podia carregar o fardo. Não se sabe se algum dia a irmã percebeu.

Vieram outros Natais, nenhum tão pobre, nenhum tão feliz.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Ouça o episódio mais novo do podcast da Claudia Nina: Delirium Tremens.

Conheça também a página oficial da autora.

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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