O almoço tinha que ser às 10:30 porque o carro da condução passava pontualmente às 11:15.

– Comer e se coçar basta começar – era a ladainha da mãe para convencê-la a empurrar goela abaixo a comida.

O colégio era longe, atravessava parte da cidade para chegar a tempo da primeira aula, às 13 horas. Como oito crianças se esmagavam dentro de uma Variant continua um mistério até hoje.

A moça motorista achava que todas as meninas se davam bem no banco de trás, mesmo que disputassem cada centímetro de espaço. De vez em quando, olhava pelo retrovisor para checar a harmonia e não se dava conta de que estavam prestes a se engalfinhar. Todas contra uma. As que moravam mais perto da escola e eram pegas mais perto da hora de entrar se erguiam lentamente contra a que morava mais longe e era a primeira a entrar no carro, a que almoçava às 10:30.

A moça motorista não percebia.

Até o dia em que a situação chegou ao ponto máximo. O trânsito da volta estava péssimo e, por alguma razão não explicada, a menina que morava mais longe seria deixada antes das outras. Era noite. Devia ser já quase oito horas – que fome, o lanche tinha sido às três da tarde. Depois do almoço às 10:30 tinha comido só pão quente com água na hora do recreio.

Naquele dia estranho, a rejeição à menina ganhou forma mais densa e qualquer coisa que ela falasse seria usada contra ela. Maldita a hora em que pensou que pudesse contar do presente que a mãe lhe dera: um vestido com a estampa do Mickey Mouse. Ela não sabia como se pronunciava “mouse”.

Falou como se lê em português, inocentemente.

Foi o suficiente para que uma raiva inexplicável nascesse no mais profundo das meninas que moravam perto da escola. A simples palavra pronunciada errada atiçou a ira de todas, e contra a menina foram lançados risos sarcásticos, pontas de lança venenosas.

Os risos tomaram conta do carro como gente e não havia nada que a menina dissesse que melhorasse a situação. Quando o carro estacionou na frente do sobrado, duas das meninas resolveram que a menina sairia do carro a pontapés. E chutaram a mochila dela com muita força. Quem mandou não saber falar “mouse”!

A menina saiu quicando, a boca foi parar na calçada. Subiu a escadaria chorando alto, a mãe na janela adivinhava que alguma coisa ia mal.

Quando entrou em casa, contou tudo. A mãe ligou para a moça motorista e prestou a queixa. Tudo o que a menina queria era que, no dia seguinte, não fosse obrigada a voltar ao cenário do sarcasmo e encarar todas novamente. Mas não. A mãe não dirigia, não havia outra forma de ir ao colégio. A condução a esperava como sempre, na mesma hora, logo depois do almoço engolido.

Foi obrigada a olhar cara a cara para aquelas que as havia chutado pelas costas.

Às vezes, é preciso voltar para a dor e encará-la de frente até não doer mais.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros,
de Amor de longe (Editora Ficções)

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.