Depois da manhã na praia e do almoço de sempre, que variava entre salsichas e sardinhas com macarrão, estavam os dois irmãos imersos na paisagem da janela da sala, enquanto os pais dormiam a tarde inteira. Só acordavam no começo da noite para comer um lanche. Depois dormiam de novo e era esse o verão.

Naquela tarde, porém, eles iriam colocar em prática o plano adiado: a praia era perto do apartamento da avó, onde ficavam. Então, quando os pais morressem em pleno dia, eles fugiriam para o sol, o que não seria nenhuma libertação profunda, porque logo retornariam. Quem sabe os pais sequer percebessem.

E foram. Desceram pelas escadas os cinco andares porque temiam que, no momento da espera pelo elevador, fossem capturados antes da alegria.  Desceram correndo e aquela euforia já era um pouco de mar.

Saíram com o roteiro decorado das ruas – eles faziam aquele tabuleiro desde bem pequenos, não tinha erro. Logo estavam na praia, que delícia a hora da tarde, menos sol ardente, menos gente, o mar cor de piscina, tudo era só deles. O sal tinha outro sabor porque era roubado; uma pequena felicidade clandestina a de estarem ali sem que os pais soubessem. Se por acaso tivessem anunciado o plano, eles não teriam liberado – era preciso a pequena fuga da tarde, urgente, morna, valente.

Voltaram exaustos e felizes, os pés imundos de areia e sujeira, na correria tinham esquecido os chinelos. A porta ainda estava aberta, os pais no mesmo lugar, ainda mortos no começo do fim da tarde.

Eles voltaram para a paisagem da janela, de onde viam o canal e pequenas embarcações, um leve apito de barco indo e vindo.

Na verdade, nunca saíram da paisagem da janela.

A aventura da praia roubada, alegria de uma tarde, nunca aconteceu, porque a irmã, mais velha um pouco, não teve a coragem de aceitar o desafio proposto pelo irmão. Nunca tiveram a memória da correria pelas ruas em busca do mar só deles.

De volta das férias, a covardia da menina virou um tormento para quem queria o mundo. A partir dali, jurou nunca mais adiar as fugas nem deixar que a paisagem se aprisionasse à janela. O irmão, de menos palavras e mais gestos, levou a sério o desejo de além-mar e, assim que pôde, sumiu no horizonte.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
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Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.