Chegou à velhice aprendendo a obedecer, especialmente à mulher, a quem maltratou com muitos filhos e o desejo de um aborto, o convite à morte alheia que ela jamais esqueceu. Ela fazia costura para a filharada e dava conta do dinheiro do mercado, ninguém nunca passou fome, mas não tinha fartura. O pão era contado. Um para cada um, à exceção do filho mais novo que merecia ser mais bem tratado lá nos íntimos, ele que quase não vingou por culpa do convite à morte feito pelo pai que, na juventude, não tinha nada da obediência cálida daquela velhice extrema; parecia tão velho que era de perfil.

A família viveu com o dinheiro de herança, porque ele não se dispôs a mexer nos negócios do pai, dava trabalho, ele tinha uma preguiça secular, sair de casa era uma dificuldade, então ele resumia suas obrigações nas idas ao banco, ao mercado e à padaria. Com o tempo, a mulher, afoita, tirou dele a incumbência do mercado e passou a um dos filhos. O banco e o pão eram tudo o que lhe restava fazer.

Naquele dia, ele só precisava comprar o pão.

O ritual pré-pão exigia um tempo enorme de preparo. Abrir o guarda-roupa para vestir a carcaça mole e fiapada. Sentia sempre mais frio do que deveria. E, sob um sol de meio-dia no verão da pequena cidade de Minas, ele com blazer de lã e camisa de manga comprida por baixo. Aquilo irritava tanto a mulher, mas tanto, que talvez, no secreto, ele insistisse em ser lento e inocente só para criar ao redor o clima de piedade e afugentar dela o resto de paz. Ela era ágil, enérgica, vivente. O casamento sempre foi um tormento.

– Vai comprar o pão e vê se morre!

Ela estava mais nervosa do que o normal.

Ele, mais obediente.

Terminou de se vestir, fechou lentamente a porta do guarda-roupa e saiu.

Fechou com chave seu quarto que era só dele.

Desde o nascimento do último filho, aquele que sobreviveu ao convite da morte, não conseguiu mais dormir no mesmo quarto. Enfiou a chave no bolso. Aquele mundo era só dele, que vivia na clausura. Até a sopa da noite ele tomava no quarto, vai encher de barata, ela dizia, mas ele não se aventurava a ir para a mesa cheia de olhares e bocas.

 Saiu na direção da padaria.

– Vai comprar o pão e vê se morre!

Desceu a escadaria do apartamento pela última vez.

Conseguiu chegar à padaria, que era na esquina. Comprou exatamente a quantidade de sempre, nenhum pão a mais. E voltou. Atravessou a galeria que acaba em uma avenida – a maior da cidade. Foi justamente naquela rua que ele escolheu para não olhar para os lados. Espatifou-se no meio, o corpo-perfil lançado no asfalto.

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Esta história trágica realmente aconteceu com alguém que me sussurrou. É incrível como, com o tempo, as amarguras entre os casais crescem. Talvez porque falte a verdade que fica entalada na garganta e depois não se dissolve jamais; pode virar um grito de morte…

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

Leia outros contos de Claudia Nina na coluna Histórias que a vida conta. Conheça também a página oficial da autora.

 

Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.