“Referências de economistas negros/negras no Brasil?”, perguntou no Twitter o advogado Thiago Amparo. Com mais de 46 mil seguidores, o professor da FGV Direito e colunista da Folha de S.Paulo recebeu apenas 14 respostas.

O episódio é sintomático de uma realidade das ciências econômicas brasileiras: a baixa presença de pessoas negras numa área que ocupa a linha de frente na elaboração de políticas públicas no país.

A fim de chamar atenção para a questão, foi criada em junho a REPP (Rede de Economistas Pretas e Pretos), que pretende ampliar o espaço desses especialistas no debate público de questões econômicas.

O grupo reúne atualmente cerca de 30 economistas e estudantes de economia negros. Trata-se de uma rede de apoio mútuo e também de discussão para intervenção no debate público.

Falta de representatividade negra na economia começa na graduação

Em um levantamento feito pela Folha de São Paulo a partir de dados do Censo do Ensino Superior do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) mostra que, em 2018, apenas 30% dos concluintes de cursos de graduação em economia se declaravam pretos ou pardos.

Imagem: McElspeth / Pixabay

O percentual tem crescido aos poucos. Era de 27,1% em 2013, ano seguinte à criação da Lei de Cotas, que instituiu a reserva de vagas em instituições federais de ensino superior, por critérios de renda e raça.

Esse valor ainda é muito inferior à presença de negros na população brasileira, que é de 56%, segundo dados do IBGE de 2019 (considerando os que se declaram pretos e pardos), e à parcela de negros concluintes de cursos de graduação em geral, que chegou a 41% em 2018, segundo os dados do Inep.

O percentual de negros concluintes de cursos de graduação em economia, que sugere o volume de profissionais que estão entrando no mercado de trabalho, também é menor do que o de ingressantes na faculdade. 

Em 2013, essa parcela era de 33%, subindo a 38% em 2018. O que indica que estudantes pretos e pardos também enfrentam dificuldades maiores do que seus pares brancos para se manter nos cursos.

Na avaliação do estudante cotista de graduação em economia da Universidade Federal do Ceará, Bruno Gomes, de 24 anos, as dificuldades enfrentadas por alunos como ele vão desde a falta de profissionais negros para servirem de modelo, até o perfil elitizado do curso, que exige conhecimento de inglês e valoriza experiências como intercâmbios internacionais.

O conhecimento de matemática também é uma dificuldade para alunos que vêm do ensino público com deficiências na formação. “Pesam também as dificuldades materiais, como comprar um notebook, que eu não tinha e só fui ter agora no final da graduação”, afirma.

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“Internet boa, espaço para estudar em casa, livros, são todos fatores de dificuldade para acompanhar o curso, porque o nosso perfil socioeconômico é outro. Há também falta de sensibilidade dos docentes com a questão.”

Os alunos negros de economia muitas vezes também trabalham para ajudar suas famílias, diz Gomes, ao mesmo tempo em que moram em bairros violentos, onde o medo de se tornar vítima da guerra às drogas é um fator constante.

“Soma-se a isso uma grande ansiedade por não se verem empregados na área, porque as oportunidades parecem ter uma cor definida. Não há certeza no futuro.”

Para a estudante do último ano do doutorado em economia na FGV, Laísa Rachter, de 31 anos, a falta de diversidade contribui para o impedimento do debate racial na pós-graduação da área.”Quando você vai subindo na profissão, os espaços vão ficando cada vez mais brancos”, diz Laísa.

“Na faculdade, tive a oportunidade de discutir sobre raça. Do mestrado para o doutorado, essa discussão desaparece, porque não existem praticamente negros na pós-graduação. A falta de diversidade apaga a discussão.”

Políticas públicas não levam realidades distintas do país em consideração

Segundo levantamento de Pedro Rossi, professor do Instituto de Economia da Unicamp, dos 52 centros associados à Anpec (Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia), seis contam atualmente com cotas raciais na pós: Unicamp, Universidade de Brasília e as universidades federais Fluminense, de Uberlândia, de Minas Gerais e da Bahia.

A baixa representatividade negra na área reflete uma realidade também presente nas demais profissões. Mas é particularmente problemática, pois tem impactos na formulação de políticas públicas, avaliam economistas negros.

“Não conseguimos formular, analisar e avaliar políticas públicas sem conhecer as realidades distintas no país”, diz Synthia Santana, de 32 anos, analista do IBGE. “A falta de diversidade impacta, é difícil se colocar no lugar do outro. O problema na ciência econômica é a bolha.”

Para Mario Theodoro, de 62 anos e membro da Abed (Associação Brasileira de Economistas pela Democracia), o problema tem origem no racismo estrutural. “A elite do país não tem a cor da sua população e isso é uma catástrofe, porque as decisões tomadas pelas elites não levam em consideração os anseios da população”, afirma.

“Quando um governo coloca uma restrição de gastos por 20 anos, com certeza essas pessoas que pensaram nisso nunca subiram numa favela, nunca viram de perto qual é a situação da população negra”, diz, em crítica à regra do teto de gastos.

“Há hoje uma espécie de ‘pacto do economista branco’, um privilégio de eles nunca pensarem os efeitos de suas políticas na população negra e pobre. A presença de negros e da população de origem pobre importa, a falta de diversidade afeta o que é estudado e como é estudado”, diz o estudante Bruno Gomes.

“Precisamos de espaço, de protagonismo nas discussões públicas, nos jornais e nas decisões políticas que nos afetam, por isso criamos a REPP.”

A baixa presença de negros na área passa ainda pela falta de dados sobre o tema. No Censo do Ensino Superior, o nível de não resposta para o item cor/raça entre os alunos de graduação em Ciências Econômicas chegava a 54% em 2013, patamar que foi reduzido a 20% no dado mais recente.

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Já nos dados da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), sobre alunos de mestrado e doutorado, o nível de não resposta para a questão racial chega a superar 70% em alguns anos.

Entre os respondentes, em 2018, cerca de 37% dos alunos ingressantes de mestrado em cursos de economia se declaravam pretos ou pardos. No doutorado, gira em torno de 25%. O baixo nível de preenchimento do item indica que esses dados devem ser lidos com cautela.

“As universidades ainda não fazem uma coleta qualificada da declaração racial dos alunos. Há um certo desconforto de se perguntar sobre isso por que há quem considere ofensivo questionar a cor ou raça da pessoa. Há uma barreira cultural que tem a ver com o legado brasileiro de uma certa recusa em discutir as desigualdades raciais”, diz Adriano Senkevics, pesquisador em Educação na Universidade de Toronto.

Com relação aos economistas em atuação no mercado, o Cofecon (Conselho Federal de Economia) não exige dos profissionais registrados que informem cor ou raça e, por isso, não possui dados sobre o tema.

Nos principais departamentos de ensino de economia do país, também não há registro sobre raça ou cor dos professores em atuação. De acordo com José Carlos de Souza Santos, chefe do departamento de Economia da FEA-USP, esse tipo informação nunca foi uma preocupação. 

“Nossa única preocupação tem a ver com a produção científica e qualidade dos cursos ministrados, não fazemos nenhum tipo de controle com relação a raça de professor.”

A FGV informou que não possui dados de cor ou raça de seus docentes. Já o Insper disse não ter dados específicos sobre seu curso de economia, mas que na instituição como um todo possui dez docentes pretos ou pardos (2,6% do total).

A UFRJ afirmou que não conseguiria atender à solicitação de dados, e PUC-Rio e Unicamp não responderam ao pedido de informação.

THAIS CARRANÇA E DANIEL MARIANI || FOLHAPRESS (SÃO PAULO)