Saiba o que acontece nos três primeiros anos de nossa vida e por que não nos lembramos de quase nada:

 

Amnésia infantil

Sou a caçula de cinco filhos, bem mais nova que os outros. Quando tinha 6 anos, meus irmãos já haviam saído de casa, e passamos de um lar ruidoso para um quieto. Minha família me contou histórias daqueles primeiros anos, antes que meus irmãos fossem embora. Que meu irmão me emboscava nos cantos com um jacaré de brinquedo. Que minha irmã mais velha me levava como um canguru com seu filhote. Mas só consigo me lembrar de pouquíssimas histórias minhas daquela época.

Quase nenhum adulto consegue. Isso tem nome: amnésia infantil, expressão cunhada por Sigmund Freud para descrever a falta de lembranças dos adultos sobre seus três ou quatro primeiros anos de vida e a escassez de lembranças firmes até os 7 anos, mais ou menos. Houve um século de pesquisas para saber se as lembranças desses primeiros anos ficam escondidas em alguma parte do cérebro e só precisam de uma dica para serem recuperadas. Mas hoje se acredita que as lembranças formadas nesses primeiros anos simplesmente desaparecem.

A psicóloga Carole Peterson, da Universidade Memorial, no Canadá, fez vários estudos para identificar quando essas lembranças somem. Primeiro, ela e seus colegas reuniram um grupo de crianças entre 4 e 13 anos para que descrevessem suas lembranças mais antigas. Os pais delas estavam junto para confirmar os relatos e até as crianças mais novas conseguiam recordar fatos de quando tinham cerca de 2 anos.

As crianças foram entrevistadas de novo dois anos depois. Quase 90% das lembranças antes descritas pelos que tinham 10 ou mais anos se mantiveram. Os mais novos, porém, tinham esquecido. “Mesmo quando lhes contamos suas antigas lembranças, eles disseram: ‘Não, isso nunca me aconteceu’”, conta Peterson. “Estávamos observando a amnésia infantil em ação.”

Memória seletiva

Tanto em crianças quanto em adultos, a memória é estranhamente seletiva ao decidir o que fica e o que vai. Num de seus artigos, Peterson conta um caso do próprio filho. Quando o menino tinha 20 meses, ela o levou à Grécia, onde ele se empolgou muito com uns burros. Eles conversaram sobre burros durante um ano, pelo menos.

Mas, quando foi para a escola, o filho tinha se esquecido completamente dos burros. Quando adolescente, perguntaram-lhe sobre sua lembrança mais antiga da infância. Em vez dos burros gregos, ele recordou um momento, não muito depois da viagem, em que uma mulher lhe dera montes de biscoitos.

Peterson não faz ideia de por que ele se lembrava disso; foi um momento banal que a família não reforçou com conversas. Para entender por que algumas lembranças duram mais do que outras, ela e os colegas fizeram outro estudo e concluíram que, se a lembrança fosse muito emocionante, a criança teria o triplo de probabilidade de retê-la.

Receita de gelatina

As lembranças densas – em que as crianças entendiam quem, o quê, quando, onde e por quê – tiveram cinco vezes mais probabilidade de serem retidas do que fragmentos desconexos. Ainda assim, lembranças soltas e sem importância permanecem.

Para formar lembranças a longo prazo, é preciso alinhar uma série de fatores biológicos e psicológicos. A matéria-prima da memória – as imagens, sons, cheiros, sabores e sensações táteis da experiência – chega e se registra no córtex cerebral, sede da cognição.

Para que se tornem lembranças, tudo isso tem de se agrupar no hipocampo, estrutura cerebral localizada sob o córtex. Mas algumas partes do hipocampo só se desenvolvem inteiramente na adolescência; o que torna mais difícil que o cérebro da criança complete o processo.

“Acontece muita coisa em termos biológicos quando uma lembrança é armazenada”, disse-me a psicóloga Patricia Bauer, da Universidade Emory. “Há uma corrida para estabilizá-la e consolidá-la antes que nos esqueçamos. É como fazer gelatina: você mistura o pó, põe na fôrma e deixa na geladeira até firmar. Mas a fôrma tem um furinho. Você só pode torcer para que sua gelatina – a lembrança – fique firme antes de vazar. Além disso, as crianças pequenas têm uma compreensão tênue da cronologia. Não têm vocabulário para descrever um evento e não podem criar o tipo de narrativa causal que Peterson encontrou na raiz das lembranças firmes. E não têm um grande senso de identidade, que as incentivaria a pensar sobre sua experiência como parte de uma narrativa de vida.

Além disso, nos primeiros anos, criamos uma tempestade de novos neurônios no hipocampo. Um estudo recente com camundongos indicou que esse processo pode criar esquecimento porque desorganiza os circuitos das lembranças existentes. Nossas lembranças também podem se distorcer com a lembrança dos outros sobre o mesmo evento ou com novas informações.

Histórias que ficam

É claro que algumas pessoas têm mais lembranças da primeira infância do que outras. Um estudo de 2009, realizado por Peterson, Qi Wang, professora da Universidade Cornell, e Yubo Hou, da Universidade de Pequim, verificou que as crianças da China têm menos lembranças desse tipo do que as do Canadá.

Eles sugerem que o achado pode ser explicado pela cultura: os chineses prezam menos a individualidade do que os norte-americanos e, portanto, talvez tenham menos probabilidade de dar atenção aos momentos da vida do indivíduo. Por sua vez, os ocidentais reforçam a recordação e mantêm vibrantes as sinapses por trás de cada lembrança pessoal.

Quando um adulto conversa animadamente com uma criança sobre eventos e a convida a completar a história, “esse tipo de interação contribui para a riqueza da lembrança a longo prazo”, disse Bauer. “A criança aprende a recordar e contar a história.”

Nossos primeiros três a quatro anos são as páginas iniciais, enlouquecedora e misteriosamente brancas, da história de nosso eu. Nesse período, passamos do que meu cunhado chama de “pão com sistema nervoso” para seres humanos sencientes. Se não conseguimos recordar muita coisa desses anos – nem as agressões nem os carinhos exuberantes –, será que o que realmente aconteceu importa? Caso uma árvore caia na floresta do início de nosso desenvolvimento sem que tenhamos as ferramentas cognitivas para registrar o evento na memória, ele ainda ajudaria a configurar quem somos?

Bauer diz que sim. Mesmo que não recordemos antigos eventos, eles deixam sua marca no modo como senti- mos e entendemos a nós mesmos e o mundo em geral. “Talvez você não se lembre de ter patinado no gelo com o tio Henrique, mas entende que patinar e visitar parentes é divertido”, explicou Bauer. “Tem a sensação de que há pessoas boas, que são confiáveis. Talvez nunca consiga identificar como aprendeu isso, mas é algo que você sabe.”

Não somos a simples soma de nossas lembranças, pelo menos não inteiramente. Somos também a história que construímos para nós. E essa é uma história que nunca esqueceremos.

 

Por KRISTIN OHLSON de AEON.CO