Nessa sociedade multirracial, nós, gringos, nos comportamos como camaleões e passamos despercebidos. Até abrirmos a boca. E aí nossos sotaques, erros gramaticais e tropeços bilíngues criam situações tão constrangedoras que começamos a sentir saudade da pátria.

Para mim, essa saudade bateu poucos dias depois da minha chegada aqui. Tinha acabado de entrar num banco com uma amiga brasileira, levando cédulas misturadas para depositar. Para separá-las, decidi pedir ao caixa alguns elásticos e perguntei à minha amiga, em inglês, como dizer rubber band (elástico). Ela, no entanto, ouviu que eu estava perguntando como dizer rob a bank em português, e respondeu “roubar um banco”. Então virei para o caixa e falei “quero roubar um banco”. O caixa, assustado, fitou minhas mãos buscando uma prova mais ameaça dora. Felizmente, minha amiga se deu conta e intercedeu a tempo de evitar um desentendimento mais grave.

Esses tropeços bilíngues costumam ser apenas embaraçosos. Quando chamo um pequeno roedor invasor de “cagamundo” ou uso um provérbio como “vou matar dois coelhos com uma caixa-d’água só”, os brasileiros se divertem, mas me sinto um “débito” mental.

Esse mal-estar me pegou quando, com alguns amigos num bar, vi uma moça faceira passando e, tentando me abrasileirar, falei “aquela tem borocochó” em vez de “borogodó”.

Quando chamo um pequeno roedor invasor de “cagamundo” ou uso um provérbio como “vou matar dois coelhos com uma caixa-d’água só”, os brasileiros se divertem, mas me sinto um “débito” mental.

Sofri um constrangimento ainda maior quando disse ao chefe de uma agência de notícias que me entrevistava para um emprego no Rio de Janeiro que eu era “bacalhau” (em vez de bacharel) em Zoologia. Minhas tentativas de elogiar minha mulher também saíram pela culatra quando, ao apresentá-la a alguns conhecidos, eu a chamei de “uma tesoura” (em vez de “um tesouro”).

Depois de estar aqui há 15 anos, meu sotaque forte ainda causa equívocos. Quando ligo, por exemplo, para marcar uma entrevista, a secretária pergunta “quem quer falar?”. Respondo “jornalista americano”, e ela sempre pergunta “João Luís quem?”.

Comodamente, coloco a culpa do meu sotaque na minha única professora de português, uma americana que viveu em Portugal com uma família angolana.

Mas, para ser honesto, só posso culpar pelos graves erros idiomáticos o fato de, em algum ponto da minha temporada aqui, ter parado de melhorar meu português – me acomodei.

Vou sempre ser um gringo aqui. Só que agora, se não abrir minha boca, passo despercebido na praia, de sunga e sandálias de borracha, em vez de bermudões, meias escuras – e boné.

 

Por Michael Kepp