Zé vivia às turras com Sônia, a mulher fanha e sem dente, que teve um problema não se sabe quando – talvez um acidente ou uma infecção na gengiva – que a deixou só com alguns exemplares de dentes para mastigar devagar. A voz da mulher era um martírio. Sônia gostava de falar. Zé, o marido, era o alvo mais disponível.

O homem tentava.

Até quando desistiu de fingir e comprou um fone de ouvido – sem música, só o fone. Precisava desesperadamente do silêncio. Desde que ficara fanha, a vontade de Sônia de falar dobrara. A capacidade de Zé conseguir ouvi-la sem muito sofrimento diminuía a cada ano. Sônia falava no vazio mesmo que Zé não a escutasse – ela não percebia que ele não escutava. Só às vezes suspeitava da não resposta e resolvia gritar para ver se surtia algum efeito. Tudo ficava pior, claro, e o marido fingia que dormia. Era o jeito.

Zé passou a ir com o fone a todos os lugares. A missa era um compromisso nunca perdido. O casal ia junto à igreja, sentava-se no último banco. A voz fanha de Sônia ecoava e, na acústica da cúpula, ganhava corpo. O marido de fone gigante e laranja. Escolheu uma cor berrante e sem disfarce – a parede entre ele e a voz da mulher. Chegou ao ponto de resumir Sônia a uma voz: insuportável, ignorada, maldita.

Ele ia de fone também à padaria e ao banco.

Isolado, já que com a mulher não conseguia mais conversar, imerso no silêncio que criara para si, com poucos amigos, Zé foi murchando pouco a pouco. A irritação do começo sumiu à medida que ele desistiu de lutar.

Como se sabe, as linhas que desatam o corpo da alma se prendem por dentro. E, ponto por ponto, Zé foi se desalinhavando. Um dia, levantou, tomou o café de sempre com pão na chapa e bolo de fubá. Depois, equipado com seu fone, mesmo que Sônia não estivesse ao lado (medo de ela aparecer de repente e surpreendê-lo com a voz), foi à padaria. Naquele dia, comprou as rosquinhas do lanche e pediu para acertar as contas do mês. Pagou tudo adiantado. Era a sua única dívida, a pequena conta da padaria.

Saiu com o pacote de rosquinhas debaixo do braço e foi dormir de novo. Sentiu um sono repentino e estranho. Ainda antes do almoço não lhe parecia hora de voltar para a cama, mas respeitou seu desejo interno. Sônia falou sem parar – vê se aquela era hora de o sujeito dormir!

Aconteceu de Zé não mais acordar.

Faleceu na cama, munido de seu fone laranja, pois não o tirava nem dormindo. Depois de acertar as contas com a vida, ele precisava acertar as contas com a morte. Que espécie de silêncio profundo o esperava?

Sônia chorou e até o soluço era fanho.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora – autora, entre outros livros,
de Amor de longe (Editora Ficções)

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