Depois da sentença do pai de que só poderia ir aos passeios da escola se aprendesse a nadar, ela logo se prontificou a obedecer a detestável rotina de acordar cedo e, junto com a mãe, pegar dois ônibus para estar de pé na fila do professor Januário, às 8. Tinha medo de cair na piscina e ainda estar dormindo. Desde sempre, o processo de acordar era lento, e ela nunca aprenderia com os pássaros o segredo das manhãs.

Pensou que o aprendizado teria que ser rápido.

Mas como fazer para se sentir acordada o suficiente para não afundar? Bater pernas e braços na velocidade capaz de produzir algum equilíbrio antiafundamento era um esforço gigantesco. Talvez ela não conseguisse e aí estariam eliminadas todas as possibilidades de passeio em sítios, fazendas, clubes e similares.

Já estava quase resignada a perder o jogo para aquela água toda – não conseguiria sequer boiar. Foi quando o professor Januário percebeu e se aproximou para ajudar. Na imaginação da menina de 9 anos, aquele professor era a primeira figura masculina diferente do seu pai ou do seu avô. Era um homem de verdade que simbolizaria para ela o que talvez ela encontraria no futuro.

Claro que ele nunca suspeitou de seus pensamentos perversos.

A menina era quieta, e os colegas da natação nunca se transformaram em amigos. Ela só queria mesmo era aprender a nadar e sair logo dali, o que seria uma tarefa que talvez levasse uns dez anos. Ela fazia os exercícios, usava as boias de braço, seguia sem rebeldia o método do professor. Até o momento em que sentiu que precisava chamar a atenção de Januário para tentar transformar o tedioso aprendizado em um processo mais desafiador.

Começou a se posicionar no primeiro lugar da fila e a fazer perguntas como se não tivesse escutado direito ou entendido. Januário começou a chamá-la pelo nome. Na imaginação da menina, em seu mundo mágico e estrelar, ela estava sendo amada. Ele era quase um príncipe aquático dos mares perdidos.

Então o que parecia impossível aconteceu.

Chegou o dia em que todos foram convocados a se atirarem na piscina olímpica sem boia. Ela estava com medo, mas não poderia demonstrar isso de jeito nenhum diante da sua primeira paixão.

Tentou disfarçar o pavor de se atirar na fundura. Januário percebeu. E a chamou pelo nome, mas sem nenhum paparico. Era apenas a convocação para que ela fizesse o que deveria: mergulhar e sair nadando.

Na imaginação da menina, o seu nome mais uma vez dito pelo príncipe das águas seria a força de que precisava para confiar na sua capacidade de agir. Mergulhou e nadou com coragem. Assim que chegou na outra ponta da piscina, ela finalmente celebrou a vitória que antes parecia impossível.

Só muito mais tarde entendeu que o amor secreto e platônico – o primeiro de muitos – foi o incentivo de que precisava para ajudá-la no intento. E depois, quando descobriu o amor real, percebeu que só seria capaz de verdadeiramente se apaixonar por quem a levasse a mergulhar em águas profundas.

Por Claudia Nina – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

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