A secretária Vaneide Torres começou a conversar com Iramaia sobre algo que tinham em comum: filhos pequenos. Mas as semelhanças, à época, paravam por aí. Iramaia era moradora de rua no bairro de Botafogo, zona sul da cidade do Rio de Janeiro, e Vaneide passou a ajudá-la com doações sempre que a encontrava. O tempo passou e, quando o conselho tutelar tirou os filhos de Iramaia por falta de domicílio fixo, Vaneide foi em seu auxílio, tornando-se fiadora de um imóvel e ajudando-a a recuperar a guarda das crianças. Na ocasião, Vaneide passava por seus próprios problemas mas, mesmo assim, resolveu ajudar a mulher. “Sinto-me realizada ao doar alguma coisa, seja uma palavra ou um ombro amigo quando necessitam”, diz Vaneide.

No Canadá, a  corretora Tia Geminiuc deu o exemplo ao ajudar uma idosa que perguntava o caminho até uma casa de repouso. Ela tentou explicar o trajeto, mas acabou dando uma carona à mulher que, por isso, pôde ficar duas horas a mais na companhia do marido, paciente da instituição. “A sensação que temos quando alegramos o dia de alguém é algo impossível de comprar”, diz ela. “Naquele momento, ela precisava mais de mim do que todo o resto do mundo.” É gostoso pensar que fazemos o bem somente porque gostamos de “alegrar o dia de alguém”, mas pode haver motivos mais profundos. “A seleção natural minimiza o comportamento benéfico aos outros, mas isso nos custa caro”, diz Pat Barclay, psicólogo da Universidade de Guelph em Ontário, no Canadá.

A Ciência do altruísmo

Então, o que a ciência nos ensina sobre o altruísmo? Para começar, é possível que seja uma forma de egoísmo esclarecido. “Há indícios de que, quando alguém ajuda, é provável que haja reciprocidade”, explica Marylène Gagné, psicóloga social da Universidade Concordia, em Montreal. “Pode não vir da pessoa ajudada, mas acontece. Todos acham que devem alguma coisa. A sociedade se torna mais coesa, e todos se beneficiam.”

Para Geminiuc, que venceu um câncer recentemente, isso faz muito sentido. “Nunca sabemos quando precisaremos de ajuda”, explica.  No caso de Vaneide, a separação e o desemprego  foram fatores que  geraram identificação com a  pessoa ajudada. “Na época, eu estava no olho do furacão. Mas pensei: se a minha vida está difícil, imagine a dela: sem casa, amigos ou estudo.  Essa é a hora do recomeço.”

Fazer o bem

Ajudar os outros também pode trazer mais sorte no amor. Em um estudo, o psicólogo Barclay mostrou que preferimos parceiros altruístas para relacionamentos sérios. “Queremos um parceiro que fique ao nosso lado, que se preocupe com o nosso bem-estar e com o de nossos filhos”, diz Barclay. Pela mesma razão, é desejável ter amigos que fazem o bem. Todos os escolhem, pois pessoas assim têm maior chance de cooperar. A pesquisa revela ainda que, além do benefício em relacionamentos, somos mais propensos a confiar dinheiro àqueles que consideramos altruístas.

O altruísmo também faz as pessoas se valorizarem, diz Pamela Cushing, antropóloga cultural da Universidade do Oeste de Ontário. “A maioria de nós se pergunta: sou suficientemente bom? Tenho importância? É importante que eu esteja no mundo?”  

Para quem ajuda os outros, é bem mais provável que a resposta seja sim. Mas por que as boas ações geram emoções tão fortes em quem as pratica? Os pesquisadores acreditam que seja uma recompensa evolucionária. As boas ações nos ligam aos outros na comunidade: quem já segurou a porta do elevador para alguém e, em troca, ganhou um belo sorriso ou um agradecimento percebeu essa ligação, com a sensação de que o mundo é um pouco menos hostil. “Acho que temos a ânsia natural de nos ligar aos outros. Faz parte do nosso modo de ser, porque aumenta a probabilidade de sobrevivência individual”, diz a psicóloga social Gagné. Em resumo, nos sentimos bem quando fazemos o bem. Os atos de gentileza produzem uma atitude positiva e aumentam a autoestima. “Isso nos motiva a fazer o mesmo outra vez.” 

Kit para começar as boas ações

1. Comece com pequenas coisas.
Até os pequenos atos fazem diferença e não exigem muito tempo e esforço. Quando fazemos uma boa ação, provocamos, potencialmente, uma longa série de gentilezas.

2. Pense localmente.
Não suponha que os favores à família, aos amigos e aos colegas de trabalho valem menos porque não são pessoas estranhas. Fortalecer as ligações beneficia a todos.

3. Use a cortesia comum.
Agradeça ao motorista que o deixa entrar num cruzamento e ao balconista que lhe serve o café. “Agradecer aos outros é uma boa ação”, diz a psicóloga Marylène Gagné, de Montreal. “Nós é que recebemos a ajuda, mas basta dizer obrigado para retribuir.”

4. Fique atento às pequenas oportunidades. “Estamos sempre correndo para algum lugar e não vemos o que acontece em volta”, observa Gagné. Por exemplo, a bolsa de um pedestre pode cair e se abrir ou pode haver lixo na rua. “Quando começamos a prestar atenção”, diz a psicóloga, “há muitas oportunidades para fazer coisas boas.”

5. Voluntarie-se com “egoísmo”.
Ou seja, escolha uma atividade que lhe interesse. Não precisa se desculpar se isso o leva a defender as exigências nutricionais dos gansos em vez de levantar fundos para a cura da leucemia. “Quando há interesse, é muito maior a probabilidade de a ajuda continuar”, diz Pamela Cushing, antropóloga cultural da Universidade do Oeste de Ontário. Egoísta ou não, você está ajudando.

6. Não fantasie.
“Pensar que o altruísmo é um impulso puro cria um padrão-ouro que pode virar desculpa para não fazer nada”, diz Cushing.
Quem considera os outros santos por causa das boas ações que praticam pode se convencer de que tal generosidade está além da sua competência – e aí a ajuda não acontece.

7. Procure inspiração.
Para obter ideias, visite sites na Internet e veja as opções que eles dispõem. Algumas podem chamar sua atenção sem você nunca ter pensado que seria capaz de fazer. Boas ações para você!