Quando menino, em Creta, na Grécia, Ioannis Ikonomou queria compreender a língua estrangeira que escutava dos turistas conversando na praia, que, na verdade, eram várias. Embora as palavras que ouvia nada significassem para ele, Ikonomou decidiu entender essa confusão de sons diferentes. Com 5 anos, teve em mãos um livro didático de alemão. Passou o dia inteiro sentado na praia, absorto no que lia. Quando voltou para casa, já entendia os rudimentos da gramática alemã. Também se queimara tanto que mal conseguia se mexer.

Quarenta e oito anos depois, Ikonomou, hoje fluente em 32 idiomas, é um astro da tradução no Parlamento Europeu. Quem não sabe que ele é um mago das línguas vai adivinhar ao ver as pilhas de dicionários espalhadas pelo seu apartamento. No canto, a televisão passa um programa chinês sem som.

Como convém à sua profissão, Ikonomou tem alguns hábitos televisivos estranhos. Toda noite, gosta de assistir ao seu programa de entrevistas russo favorito. Depois, assiste aos noticiários em espanhol e português ao mesmo tempo, antes de relaxar com uma novela albanesa.

“Vi que aprender línguas
me permitiria entrar
em novos mundos.”

Ele se descreve como uma personalidade dividida. “Uma parte de mim se parece com o aventureiro Indiana Jones”, explica. “Sempre quero partir numa busca e mergulhar em outras culturas.”

É preciso dizer que Ikonomou não se parece muito com Indiana Jones: é um homem de meia­‑idade e de atitudes intensas. Mas é aí que aparece o outro lado da sua personalidade. Como ele mesmo admite com prazer, “outra parte minha é meio nerd”.

Aos 10 anos, Ikonomou já dominava o inglês e o alemão e se preparava para aprender italiano. Já era óbvio que tinha um talento notável para línguas, mas ele pensa que era mais do que isso.

“Desde que me lembro, quis ser diferente. Foi isso que me estimulou. Adorava meus pais e minha irmã, mas o mundo em que viviam parecia normal demais para mim. Detestava a ideia de ser normal. Via que aprender línguas me permitiria entrar em todos esses novos mundos.”

Viajando por outras culturas

Para Ikonomou, aprender um idioma é muito mais do que aprender o vocabulário – é mergulhar em todos os aspectos da cultura de um país.

Quando tinha 18 anos, fez amizade com alguns seguidores da seita Hare Krishna numa viagem a Londres. Voltou para casa equipado com livros, para aprender sânscrito sozinho, e uma pilha de CDs de música indiana, e prontamente se tornou um vegetariano radical; não tocou em carne nos 18 anos seguintes.

Pouco tempo depois, foi à Turquia. Na época, as relações diplomáticas entre Grécia e Turquia estavam num patamar baixíssimo, e um grego querendo aprender turco era uma raridade. No entanto, Ikonomou estava decidido a usar seu talento linguístico para derrubar o máximo de barreiras possível.

“Visitei a principal mesquita de Istambul e fiquei lá quando as orações começaram. Vi o que todos faziam e comecei a imitá­‑los, sem muito jeito. Depois, todos vieram me abraçar. Fiquei bastante impressionado. Achei que ficariam desconfiados, mas, como consegui explicar o que fazia ali, foram gentis.”

Quando partiu da Turquia, Ikonomou era, inevitavelmente, fluente em turco. Mas isso não foi tudo: também aprendera o turco otomano, linguagem administrativa do Império Otomano. “Hoje, nem os turcos entendem essa língua, a menos que estudem árabe e persa.”

Depois de três anos estudando linguística na Universidade Aristotélica de Salônica, na Grécia, já dominava 12 idiomas, entre os quais búlgaro, servo­‑croata e polonês.

Em seguida, veio a língua chinesa, que começou a estudar por curiosidade quando tinha algum tempo vago. “Eu assinava uma revista em inglês chamada China Reconstructs. Em suas últimas páginas, eram publicadas aulas de chinês para iniciantes, e achei que seria divertido se conseguisse compor algumas frases.”

Mas o que faria Ikonomou com tantos idiomas? Embora sempre pensasse em fazer carreira na linguística, não tinha pressa de começar. “Tive sorte, porque meus pais ganhavam bem. Dos 20 aos 30 anos, passei a maior parte do tempo viajando e fazendo cursos de pós­‑graduação nos Estados Unidos. Então a chefe de tradução do Parlamento Europeu ouviu falar de mim e me perguntou se eu gostaria de trabalhar lá.”

Acabaram mandando­‑o para um curso de tradução simultânea em Tenerife, na Espanha, que, segundo ele, foi a coisa mais estressante que já fez. “Eu acordava no meio da noite com pesadelos em que não conseguia acompanhar o curso ou pensava: Meu Deus, perdi o que o fulano disse! Mas, por sorte, passei na prova final e fui trabalhar em Bruxelas.”

Nos últimos anos, Ikonomou trabalhou como intérprete da maioria dos chefes de Estado que falaram no Parlamento Europeu: “Felipe González, Tony Blair, Helmut Kohl… Trabalhei com todos eles.” Mas, embora passasse os dias falando baixinho no fone de cada uma dessas pessoas, na verdade Ikonomou nunca se encontrou com nenhuma delas.

“Sempre ficava fechado na minha cabine, completamente invisível. Era uma vida estranhíssima. Certa vez, subi no mesmo elevador que Tony Blair, mas é claro que ele não fazia ideia de quem eu era.”

Embora pudesse ser invisível para as pessoas para quem traduzia, Ikonomou se tornou quase uma lenda em Bruxelas. A Comissão Europeia fervilhava de linguistas, mas não havia ninguém como ele – que em apenas um mês já era fluente em esloveno. “É verdade que fui alvo de inveja. A maioria sempre foi muito gentil, mas acho que alguns se sentiram ameaçados.”

Língua estrangeira – Compreender e traduzir

Depois de voltar de um curso intensivo de dois meses em Xangai, ele também é o único tradutor da União Europeia com permissão de traduzir documentos ultrassecretos em chinês.

“Sobre a maior parte não posso falar, por questões de segurança, mas na semana passada traduzi um documento sobre a rota das drogas no Sudeste Asiático. Dá para imaginar os problemas que seriam causados se isso caísse em mãos erradas.”

Às vezes, quando está em casa folheando um de seus dicionários ou assistindo aos noticiários em português, Ikonomou pensa no que ganhou por ser tão hábil com as línguas. “Acho que isso me deu uma noção fantástica de como as pessoas vivem e como se comportam. Talvez eu não seja mais tão idealista quanto já fui. Mesmo assim, ainda acredito que muitos problemas do mundo só surgem porque as pessoas não se entendem.”