Os domingos eram estofados de tédio. A programação variava pouco e, não importava o roteiro, a casa da avó não faltava.

Costumava fazer o inventário das alegrias possíveis. Como vivia com fome de excessos, pensou no que de gostoso poderia comer para fazer de conta que seria divertido. Aí se lembrou de que o lanche das tardes era o bolo de tapioca que sobrava da sobremesa, o mesmo que um dia arrancou o dente da mãe e a deixou banguela na frente até conseguir marcar consulta e fazer o reparo. O bolo por dentro era macio, mas por fora parecia de pedra. O pai adorava. Era para ele uma espécie de madeleine do Nordeste: a família chegou até o Rio de Janeiro à prestação, descendo, mês a mês, estado a estado desde o Maranhão. Dormiam em coretos de praça quando chegavam a uma cidade nova de madrugada. Lugar para ficarem era detalhe. O importante era viajar.

Voltando ao inventário das alegrias, a comida não contava ponto. A menina teria de criar alguma outra coisa que pudesse fazer sumirem as horas ouvindo conversa de adulto. Pensou que investigar o quarto do tio que havia se casado e sumido não tinha mais graça. Já havia ficado horas sentada no chão, olhando os móveis, as imagens dele quando criança e depois mais velho. Os livros, os objetos. O quarto grande e vazio, de móveis alaranjados, era agora um espaço de ninguém. Teve um pouco de pena da avó quando pensou que aquele filho não tinha aparecido mais. Ela era criança ainda, mas de repente imaginou que a velhice da avó poderia pegá-la por contágio e, de repente, do dia para a noite, também teria 70 anos. E correria o risco de ser uma pessoa da qual os filhos se afastam.

Quando entraram, a menina fingiu saudade com um sorriso torto de canto esquerdo – disfarce inútil.

Depois dos cumprimentos, correu para o banheiro, apertada de xixi. Ficou lá dentro o maior tempo possível, imaginando o dia que teria a coragem de ligar a banheira e mergulhar enquanto a visita passava. Mas achou que seria uma afronta fazer o pedido e antecipava a resposta da mãe – vem aqui para ver sua vó; banho toma em casa. Depois do xixi demorado, arrastou-se para a sala onde ficaria parafusada até a hora de ir. O domingo de pedra lascada, que dureza aguentar aquela visita eterna.

Até que uma surpresa transformou o domingo. Um milagre em pleno fim de tarde imprestável aconteceu: a avó pausou a conversa de adulto, que ia no mesmo rumo das lamúrias de sempre, olhou para a menina e percebeu no fundo da retina ofendida o ar de sofrimento. E lhe disse:

– Que carinha mais triste. Vou te mostrar uma coisa!

E a levou até o quarto de dormir.

– Você já está crescidinha e por isso vou te emprestar a minha penteadeira. Pode brincar de usar o que quiser.

Era um oásis de diversão imprevista.

Nunca na vida ela poderia imaginar que um dia ganharia da avó a permissão de conhecer a penteadeira lotada de bijuterias: colares, brincos, anéis de pedras coloridas, cada um mais lindo do que o outro. Era uma penteadeira enorme, com vários espelhos, que ficava no fim no quarto, um canto secreto. Cada peça tinha uma caixinha própria. Havia pedras de todos os tamanhos incrustadas em anéis e pulseiras que combinavam – ela brincava de fazer os pares. Fazia produções diversas de acordo com as cores: vermelhas, azuis, amarelas, verdes…  Não tinha a malícia de imaginar que bijuteria era coisa falsa. Não. O que brilhava era real e ponto.

O tempo passou voando.

Quando menos esperava, era hora de partir. E, pela primeira vez em séculos, o pai precisou chamá-la para ir embora.

– Mas já? A gente acabou de chegar!

Com pesar por não ter sido capaz de merecer o tesouro em nenhuma de suas visitas anteriores, foi embora. Teve um pouco de pena da avó e jurou que nunca mais faria cara de aborrecida quando chegasse à casa dela. Saiu da penteadeira, não sem antes se certificar de que guardara tudo em seus devidos lugares.

Queria voltar e voltar.

Nunca mais precisou fazer o inventário das alegrias possíveis. A nordestina cravada no Rio de Janeiro com sua meia dúzia de filhos, quem diria, era uma rainha disfarçada, pois tinha “joias” encantadas escondidas no quarto. Só depois de adulta, a menina percebeu o ensinamento daquele momento histórico: onde menos se espera, existe um tesouro oculto.

Por CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

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