Muito se discute, atualmente, sobre o quão inclusiva é a internet para os deficientes auditivos e visuais, já que (quase) tudo pode ser feito através dela e das diversas redes sociais. Agora, com o isolamento social, tudo isso ganhou ainda mais força.

E com tantas ferramentas à disposição, se tornou possível utilizar os meios de comunicação online como forma de inclusão social, como é o caso da Anne Magalhães, jovem educadora que utiliza o Instagram para interpretar diversas músicas para pessoas surdas. 

Imagine a cena: o áudio é tomado pela voz da eterna Elis Regina, em sua versão consagrada de “Como Nossos Pais”. No vídeo, Anne Magalhães reage intensamente aos sons com seu corpo. Mas essa não é apenas uma apresentação de dança, como logo percebemos. Assim como Elis, Anne também está interpretando aquela canção, mas em Libras.

Na sua página do Instagram, a educadora e intérprete formada em artes visuais, conquistou a admiração de mais de 72 mil seguidores tornando músicas acessíveis a surdos. E se isso parece um grande contrassenso, aí está justamente uma das barreiras que ela quer quebrar com seu trabalho.

Anne Magalhães interpreta músicas para surdos. (Imagem: Anne Magalhães/Instagram)

“Eu acredito que tudo deve ser acessível”, afirma a jovem de 29 anos. “Não sou eu que vou ditar do que a pessoa surda tem que gostar ou não. O que está disponível para mim tem que estar para todo mundo.”

Ela combate a ideia preconceituosa, muito disseminada, de que pessoas com deficiência são ingênuas e precisam de ajuda para saber que conteúdos querem acessar. “Você se torna ditador do que ele vai entender ou não. A minha ideia é atravessar isso.”

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Parece uma tarefa difícil, mas é preciso notar que a compreensão de música da intérprete não é nada restrita, afinal ela inclui camadas múltiplas como a literalidade dos versos, os sons e vibrações da melodia, e as sensações que a canção quer passar.

A nova arte: performance musical vai além da tradução 

Os arte-educadores a que ela se alinha, conta Magalhães, buscam sensibilizar para a arte sem esfriá-la. E a expressividade da língua dos sinais permite que a artista emita todas essas camadas da canção de uma maneira lúdica, transformando a performance em um novo tipo de arte, que vai além da mera tradução.

“Existe na língua de sinais uma relação visual, uma mimese da vida real, você conta histórias quase como um quadro”, diz. “Não quero transformar meu trabalho na ouvinte que traduz para os tadinhos dos surdos. Muita gente encara assim, e não é isso.”

O que Magalhães chama de aura ou intenção da música (ela é debochada, agressiva, dramática?) tem valor tanto na interpretação quanto no que está sendo dito na letra.

De acordo com Anne Magalhães, a performance vai além da simples tradução da letra. (Imagem: Anne Magalhães/Instagram)

Para explicar, ela dá um exemplo bem familiar: “Às vezes não tem aquela sensação de ‘não entendi direito o que aquela música do Djavan quer dizer, mas ela é tão bonita’?”

“Quando o rapper fala tão rápido que a gente não consegue entender, é mais importante a mensagem dele ou o incômodo de não entender?”, continua. “No vídeo eu consigo brincar com isso. Não preciso comunicar nem me fazer entender cem por cento. Posso abusar um pouco mais.”

Ou seja, é preciso ter em mente que o trabalho da Anne é uma maneira de reinterpretar a subjetividade original do artista. “Como você explicaria Picasso para uma pessoa cega?”, ela avança. “Ele está falando só sobre um corpo todo quebrado ou é mais a sensação que ele quer passar?”

Vídeos impactam não só os portadores de deficiência auditiva 

Os vídeos de Magalhães não são voltados apenas às mais de 10 milhões de pessoas que têm alguma deficiência auditiva no Brasil. Podem, claro, ser apreciados também por quem consegue ouvir bem as músicas que ela está interpretando.

A intérprete musical conta, alegre, que já recebeu relatos de pessoas com deficiência que compartilharam seus vídeos em grupos do WhatsApp, além de notar amigos e colegas de trabalho se arriscarem a aprender um pouco de Libras, depois de vê-la interpretando canções que curtiam.

Por fim, o objetivo desses vídeos tão sucintos é, além de aproximar pessoas com deficiência à exuberância do universo musical, também trazer para aqueles que são ouvintes uma proximidade com o dia a dia de quem é surdo. 

Folhapress