A calça cinza não saía de casa sem que o cinto a apertasse bastante muito acima da cintura, quase na altura da barriga. A camisa bege claro obedecia ao comando de se acomodar inteirinha dentro da calça. Um não andava sem o outro, mas não pensem que ele era sujo: a roupa quase sempre a mesma, mas dava tempo de lavar e secar. Ele tinha outro par de calça cinza e blusa bege, por isso conseguia alternar.

Com a aposentadoria, conseguia ter uma vida confortável em seu apartamento do Flamengo. Podia até pagar o salário da Mafalda, que o ajudava nas tarefas de casa, indo três vezes por semana. Fazia o almoço que era carne de panela com algum legume. Terça e quinta ele mesmo preparava ovo mexido com o arroz que esquentava na frigideira. Estava sempre bem alimentado.

Sentia falta dos netos que nunca tivera – não confessava a saudade desta ausência a ninguém, mas havia quem adivinhasse, pois o tamanho do rombo estava escrito no canto do olho esquerdo. Também lhe fazia falta a mulher com quem nunca se casara.

Era um solitário.

Se os netos impossíveis fossem visitá-lo no domingo, ele não sairia de casa para seu compromisso de sempre e ainda pediria à Mafalda para fazer um bolo formigueiro. Mas ele não tinha netos porque nunca teve filhos. Tampouco conheceu a mulher com quem nunca se casou e não teve filhos.

Seria um solitário completo não fosse a Mafalda, que pontualmente chegava às segundas, quartas e sextas. Ela trazia palavras vindas de fora da casa. Mafalda adorava falar e ele adorava ouvir alguém além dele mesmo.

Naquele domingo, pontualmente se arrumou e esperou, como sempre fazia, o shopping abrir. Não faltava a seu compromisso. Criou uma rotina que precisava ser obedecida porque senão teria muito azar. Dentro dele era assim: rotina desobedecida era pior do que espelho quebrado. E tinha que ser shopping, porque era mais seguro. Abandonou o hábito de frequentar uma praça do bairro porque perdeu a coragem de se expor em praça pública, com tanto assalto por aí.

Faltando dez minutos para as três, ele saiu, prontinho da silva.

Mais um domingo como todos os outros, sem netos que o visitariam para comer bolo formigueiro. Chegou ao shopping e subiu as escadas rolantes rumo ao segundo andar. Foi direto ao local de sempre, que vendia mate e pão de queijo.

Sentou-se e tirou do bolso seu bloquinho de palavras cruzadas.

Ao som da falação animada do ao redor, ficava eufórico em seu ritual inalterável. Fazia a palavra cruzada, como aquele homem gostava de palavra! Ali ele ficava até terminar de fazer a última página. Depois fechava o bloquinho, recolhia-se da cadeira, não sem antes comer um pão de queijo. Não tomava o mate porque atrapalhava o sono. E voltava para casa. Domingo era um dia muito alegre. E, na segunda-feira, Mafalda traria mais palavras de fora. Como era feliz, ele pensou.

As palavras cruzadas – de fora e de dentro do bloquinho – tinham o poder mágico de fazer com que ele se esquecesse da mulher, dos filhos e dos netos que nunca conheceu.

Por CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

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