Não faz muito tempo, quando parentes de outras cidades vinham passar o fim de semana comigo, podíamos conversar, e minha parte favorita da visita era depois que as crianças iam dormir. Abríamos um vinho e conversávamos até quase meia-noite, rindo de antigas lembranças e contando novas histórias.

Hoje a dinâmica é completamente diferente. O primeiro adulto que volta da tarefa de pôr as crianças para dormir não estende a mão para a taça de vinho; ele se instala no sofá e estende a mão para o celular. Só até os outros aparecerem, diz a si mesmo.

Um a um, todos se reúnem onde antes nos regalávamos com anedotas divertidas, mas há silêncio em vez de risos, pois todos verificam as contas de e-mail, as mensagens, o Facebook.

Podemos acabar tomando um vinho e conversando, mas todos mantêm o celular no colo a noite inteira, e a conversa costuma ser interrompida por um alerta de que alguém em algum lugar tem algo (melhor?) a dizer.   Sempre que isso acontece, sinto saudade dos dias em que eu e meus parentes concentrávamos toda a nossa atenção uns nos outros e realmente nos relacionávamos.

 

Estamos resignados a companheiros que preferem usar aparelhos a se envolver totalmente conosco.

 

Minha experiência não é única. Metade da população do mundo tem smartphones. Em muitos lugares, há mais contas de celular do que habitantes, e os aparelhos estão mesmo por toda parte.

O uso de celulares é tão generalizado que pessoas como eu, que valorizo a conversa de qualidade, se resignaram com o fato de que, às vezes, nossos companheiros preferem utilizar seus aparelhos a se envolver inteiramente conosco. O estilo de vida de hoje, com gratificação instantânea e pouca capacidade de atenção, treinou as pessoas a buscar novas informações a cada momento, e, para muita gente, os encontros cara a cara não são tão envolventes quanto os celulares com notícias e atualizações constantes. E os relacionamentos estão sofrendo.

“O celular virou um elemento de conforto; sempre que há um possível momento de tédio, as pessoas recorrem a ele”, diz Daria Kuss, professora de Psicologia da Universidade Nottingham Trent, que estuda o uso de celulares. “Desde o desenvolvimento dos primeiros smartphones, há uns quinze anos, esse comportamento se normalizou. Todo mundo tem um aparelho desses.”

(…)

Por Lisa Fields

 

Leia este artigo, na íntegra, na revista Seleções de março.