Papo de livro: Exílio poético

Quando escrevo esta coluna, estamos em plena quarentena. Em todo o mundo, há ofertas de pdfs gratuitos, livros, filmes e séries, visitas a museus, enfim,

Redação | 1 de Maio de 2020 às 01:01

Ponomariova_Maria/iStock -

Quando escrevo esta coluna, estamos em plena quarentena. Em todo o mundo, há ofertas de pdfs gratuitos, livros, filmes e séries, visitas a museus, enfim, uma possibilidade imensa do on-line para amenizar o confinamento. No meio literário, nós, autores, fazemos leituras e compartilhamos nas redes sociais. Uma iniciativa linda veio de Paris, uma das cidades mais machucadas pela pandemia: o professor da Sorbonne, o poeta Leonardo Tonus, criou o #sacadasliterarias – a ideia é ler um livro nosso ou de um colega em uma janela ou sacada e compartilhar. Criou uma página no Facebook para postar os vídeos das leituras.

Uma das boas coisas a se fazer estando em casa é, claro, ler. Tirar da pilha de não-lidos-ainda-por-falta-de-tempo os livros que esperam por você. Um dos meus, coincidentemente ou não, é o mais recente livro de poemas de Tonus, Inquietações em tempos de insônia.

A poesia de Tonus é a do homem contemporâneo dele mesmo, eterno estrangeiro, refém dos exílios aos quais estão todos imersos e solitários, ainda que estejam na multidão. O homem que reflete sobre as horas perdidas e dispersas nos corpos alheios que também são terras estrangeiras. Sobre perdas, amores, desejo, silêncio, insônias…

Um dos poemas é “Folhas”. Eis alguns versos:

quando de mim já se esquecerem
e pelo agora caminhar,
folhas cairão por este corpo sustenido
no vazio

quando de mim desviarem a
melodia das horas,
do tempo, que perco a cada instante,
novas harmonias irão moldar
o universo
desenhando o vento da luz de maio.

quando de mim já não precisarem
e na espessura do silêncio
desprender-se cometa,
será bom, meus amigos, saber
que daqui já me fui.

Ainda não se sabe como será a luz de maio. Nem se teremos luz suficiente para todas as casas que esperam o fim da guerra contra o vírus. Uma das formas de se manter forte é, sem dúvida, preencher o tempo. A leitura é uma espécie de ginástica da mente, não é mesmo? Neste sentido, a poesia é uma ginástica para a alma. Fica a dica também para uma visita à página Sacadas Literárias. Autores do mundo inteiro estão lá com leituras compartilhadas de suas varandas. Eu também!

POR CLAUDIA NINA

Claudia nina é jornalista e escritora, autora, entre outros, de Paisagem de porcelana (Rocco).