SÃO PAULO, SP – Uma sinfonia composta pelo som de respiradores mecânicos e monitores cardíacos de UTI tomou conta do trecho entre o prédio da Fiesp, na avenida Paulista, e o cemitério da Consolação, na noite desta terça (4).

A trilha sonora macabra era emitida pelas caixas de som de cem carros com as janelas abertas, em um comboio que percorreu, em marcha a ré, o trecho de 1,5 km entre os dois pontos, a uma velocidade média de 5 km por hora.

Coordenando o lento trânsito -em uma cidade marcada pela indústria de automóveis velozes- estavam Nuno Ramos, um dos principais nomes das artes plásticas, e Antônio Araújo, um dos fundadores da companhia Teatro da Vertigem.

Vestidos com roupas brancas de laboratório, botas, máscaras e escudos faciais, eles guiavam motoristas concentrados e de expressão preocupada. Além de dirigir no sentido contrário, era preciso coordenação para não bater no carro da frente ou no de trás.

Dois carros funerários encabeçavam as pontas deste cortejo fúnebre chamado "Marcha a Ré", um misto de performance e protesto criado por Ramos com o Teatro da Vertigem, que vai virar um curta-metragem pelas lentes do cineasta Eryk Rocha a ser exibido na Bienal de Berlim deste ano.

A ideia do evento era "usar a linguagem bolsonarista, mas às avessas", afirma Ramos. A produção se valeu de elementos de apoiadores do presidente, como as carreatas contra o isolamento social durante a pandemia e o hino nacional, para criticar um país que vive "a nacionalidade do pesadelo, com tudo andando em marcha ré", completa.

Na chegada da carreata ao cemitério, um trompetista tocou o hino nacional ao contrário, se apresentando em cima do pórtico da entrada após uma bandeira com a ilustração do rosto de uma mulher em agonia ser estendida de cima a baixo.

A imagem é parte do conjunto "A série trágica – Minha mãe morrendo", do artista Flávio de Carvalho (1899 – 1973), que registrou em carvão sobre papel os últimos momentos de vida de sua mãe, levada pelo câncer.

A poucos dias de o país bater os 100 mil mortos de Covid-19, a performance é uma forma de prestar uma homenagem e de fazer o luto das vidas perdidas, afirma Araújo. "O foco é a Covid, mas na verdade a ação do governo como um todo, em relação a todas as outras mortes, na arte, na cultura, na educação, a destruição ambiental."

Pensada para a avenida Paulista -região apropriada pela direita e depois pela extrema-direita a partir do impeachment de Dilma Roussef em 2016, segundo Ramos- a execução da performance envolveu 250 pessoas, entre atores, motoristas, produção, bombeiros, ambulância e agentes de trânsito.

O fechamento de duas pistas de uma das ruas mais movimentadas da cidade se deu com a ajuda da SP Cine, que auxiliou no trâmite burocrático junto à Prefeitura para a liberação de um set complexo. Em uma situação normal, transitar em marcha a ré é considerado uma infração grave pelo código penal, a não ser em pequenas manobras.

Os ensaios aconteceram no estacionamento do Itaquerão, com 40 carros, e a totalidade de motoristas para a performance foi captada nas redes pessoais e profissionais da equipe de produção. Não houve divulgação em redes sociais para evitar aglomerações e para que a execução única da obra não tivesse tropeços, segundo os organizadores.

Quem observava o mar de carros na contramão e a equipe de produção no meio da Paulista coordenando tudo pouco entendia. "Caraca, que treta", disse um ciclista. "Doideira", falou outro. Quase na esquina com a Consolação, uma terceira pessoa que vinha a toda velocidade de bicicleta gritou: "É a fila da vacina?".

A surpresa dos ciclistas em nada se parecia com a dos poucos pedestres nas calçadas, que olhavam com curiosidade resignada. Abordados pela reportagem, o segurança de um prédio disse que a procissão era "bonita", e um entregador de comida usou o adjetivo "bacana" para descrever o que via.

"Marcha à Ré" foi comissionada pela Bienal de Berlim, que acontece entre setembro e novembro na capital alemã e da qual Flávio de Carvalho é um dos artistas homenageados. A ideia inicial dos criadores era fazer uma performance-caminhada em Berlim tendo como ponto de partida o primeiro templo da Igreja Universal do Reino de Deus na cidade, mas a pandemia de coronavírus praticamente impossibilitou as viagens intercontinentais, forçando uma mudança de planos.

Ramos se diz contente por realizar um evento público de grandes proporções em um momento no qual todos estão "imobilizados pelo Zoom". "O nosso público vem dentro do carro, não estamos expondo ninguém -mas, dentro dessa restrição de possibilidades que a Covid traz, a gente consegue propor uma coisa na rua, ao vivo."

Este é seu segundo trabalho envolvendo o governo Bolsonaro de alguma forma. Durante as eleições de 2018, o artista concebeu uma série de três performances nas quais os atores interagiam, ao vivo, com os debates presidenciais na TV.

Para o Teatro da Vertigem, a ocupação de espaços públicos paulistanos faz parte de sua história. A primeira peça da companhia, "Paraíso Perdido", de 1992, foi encenada na Igreja Santa Efigênia, enquanto "O Livro de Jó", de 1995, tomou salas e corredores do Hospital Umberto 1º. Uma das experiências mais radicais do grupo, contudo, foi "BR-3", de 2006, que colocou os atores em barcos no poluído Rio Tietê.

O caráter megalomaníaco de "Marcha à Ré" tem paralelo com o espetáculo "Hopscotch", da companhia americana de ópera experimental Industry. No final de 2015, o grupo executou uma ópera com seus integrantes divididos em 24 carros em movimento pelas ruas de Los Angeles. Alguns veículos carregavam também membros da audiência, e faziam paradas no meio do caminho, onde músicos se apresentavam.

Para Antonio Duran, membro do Teatro da Vertigem que ajudou a desenvolver o conceito da obra, "Marcha a Ré" contribui para instaurar "um certo tipo de afeto solidário" em "um contexto social de apatia e anestesia" diante dos mortos por coronavírus.