PORTO ALEGRE, RS – Uma obra na rede de esgotos no centro de Porto Alegre revelou uma série de objetos com valor histórico. O ano era 2007 e os materiais do sítio arqueológico, um dos 89 da capital gaúcha, foram catalogados e armazenados no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo. O local guarda mais de 300 mil peças.

Pequenos objetos de metal chamaram atenção da equipe de arqueólogos urbanos. O que seriam aqueles artigos? Qual seria a utilidade deles no passado? "A gente olhava para isso e não sabia o que era", conta Clarice Alves, responsável pelo Acervo Arqueológico do museu, enquanto mostra os 21 itens que cabem na palma da mão.

As questões foram respondidas mais de dez anos depois. "A Fernanda Tocchetto, que coordenava o setor, visitou a Bienal do Mercosul de 2018 e tinha uma instalação com um tubo de lança-perfume. Ela viu a garrafa inteira. Por acaso ela conseguiu identificar. Ela tinha mexido no acervo pouco tempo antes e lembrou dos objetos armazenados. Descobriu que eram tampinhas de lança-perfume", explica Alves.

 "As identificações coisas acontecem porque estamos sempre processando o acervo, melhorando o acondicionamento. É isso que faz a gente descobrir muita coisa", acrescenta. Depois da descoberta, a equipe confirmou que no local da escavação, na Rua Uruguai, no Centro Histórico, realmente havia Carnaval. Não é possível afirmar exatamente de qual ano são as tampinhas, mas estima-se que datam da década de 1940.

Naqueles anos, o Carnaval de rua de Porto Alegre contava com os cordões, blocos e até as chamadas tribos, que homenageavam os indígenas.

 Escolas de samba eram minoria e os clubes com bailes fechados não eram a opção mais popular.

Apesar de ser uma droga, o lança-perfume era popular nos festejos carnavalescos desde o início do século passado, quando era importado da França. Na década de 1920, começou a ser fabricado também no Brasil. 

Em 1938, a Rodhia, uma das principais fabricantes da substância, publicou um "aviso ao público" no jornal porto-alegrense "Correio do Povo" "em vista dos boatos desencontrados". O anúncio afirmava que no Carnaval daquele ano, "estará absolutamente livre o emprego de lança-perfumes nas ruas e logradouros públicos, como foi até agora".

"Unicamente em recintos fechados que é proibida a venda de lança-perfume; toda via, estamos pleiteando junto às autoridades a revogação dessa proibição", finalizava o texto. A publicidade de lança-perfume era frequente nos jornais e revistas do país, especialmente no período de Carnaval.

"Deus momo vem vindo! Devemos recebê-los condignamente com os lança-perfumes Rodo, Rodo Metálico, Rodouro, Rigoleto, os únicos do seu agrado", dizia propaganda publicada na "Revista do Globo", editada em Porto Alegre, de 30 de janeiro de 1937.

Também na revista, uma ilustração mostra uma linda mulher borrifando-se com lança-perfume. Ao lado dela, lê-se: "O Carnaval vem vindo! Os famosos lança-perfume estão sempre na ponta!". O anúncio informa os endereços onde são vendidos os produtos.

A publicidade dá uma ideia do quanto o produto era aceito socialmente. Porém, o Carnaval acabou sendo afetado pelo desenrolar da Segunda Guerra Mundial. Diferentes prefeituras deixaram de organizar os carnavais. Navios brasileiros foram afundados e os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) lutavam contra os nazistas.

Nesse período, Porto Alegre passa a celebrar o "Carnaval da Vitória", para apoiar os combatentes enviados para reforçar as tropas dos Aliados contra Hitler. As festas eram registradas na "Revista do Globo".

Com suásticas como pegadas na neve e um soldado brasileiro atirando, um anúncio de página inteira publicado em 25 de janeiro de 1945, na mesma revista, dizia: "Até o extermínio! Este será o último ano em que o Carnaval sofrerá restrições. Não podemos nos divertir à vontade, quando sabemos que nossos bravos irmãos estão seguindo o rastro da fera nazista para exterminá-la". O anúncio era assinado pela "Cia. Energética Rio-Grandense".

Em 1948, já com Hitler derrotado, um concurso de Carnaval foi promovido na rua Uruguai, a mesma onde foram achadas as tampas de lança-perfume, segundo o livro "Carnavais de Porto Alegre" (1992, Secretaria Municipal de Cultura).

O lança-perfume foi proibido definitivamente em 1961, pelo então presidente Jânio Quadros, por ter na sua composição "substância nociva à saúde". "Abolido no país o lança-perfume", noticiava a Folha na capa de 19 de agosto daquele ano. "Generaliza-se de maneira alarmante a prática de aspiração de lança-perfume como meio de embriaguez", dizia a notícia.

Em novembro, Tancredo Neves, então ministro da Indústria e Comércio, assinou ato adiando a proibição para dezembro de 1962. Folha noticiou que o ato de Neves "tinha como justificativa o desemprego de 700 operários e as dificuldades econômicas e financeiras de várias indústrias que já haviam contraído compromissos com a fabricação de lança-perfume".