SÃO PAULO, SP – O Carnaval de 2020 será repleto de referências ao mundo esportivo nas divisões de acesso e nos grupos especiais das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Marta, Rafaela Silva, Garrincha, Pelé, Leônidas da Silva, Maria Lenk, Aída dos Santos, Daiane dos Santos, Maguila, o amor da Fiel pelo Corinthians, os hinos dos times cariocas e até o VAR, sigla em inglês para o árbitro assistente de vídeo, serão lembrados nos próximos dias.

A Inocentes de Belford Roxo, do grupo de acesso do Rio, exaltará "Marta do Brasil", enredo cujo subtítulo é "Chorar no começo para sorrir no fim". Trata-se de uma alusão a uma frase marcante dita pela jogadora na Copa do Mundo do ano passado.

"Eu sei que o preconceito vem de todo lado, aquelas que usam batom no gramado carregam a pátria além da chuteira", diz trecho do samba da escola da Baixada Fluminense.

"Quando mandaram a música para eu ouvir, fiquei aos prantos, sem palavras", afirmou a atacante de 31 anos, eleita seis vezes a melhor jogadora de futebol do mundo.

A trajetória da craque alagoana ajudará ainda o Império Serrano a desenvolver seu carnaval. A tradicional escola de Madureira, também no grupo de acesso, levará à avenida a ideia de que "Lugar de mulher é onde ela quiser!".

"Brilho não faltou ao poderoso talento revelado por Chiquinha Gonzaga, Carmen Miranda, Dercy Gonçalves, Maria Lenk, nossa rainha futebolista Marta Vieira…", afirma o Império na descrição de seu enredo, incluindo duas esportistas em sua lista de pioneiras.

A nadadora Maria Lenk foi a primeira mulher do país a participar de uma edição dos Jogos Olímpicos, em 1932. Marta estará representada na ala 24, "Rainha dos gramados".

Também falará sobre mulheres o Amizade da Zona Leste, da terceira divisão de São Paulo -mais especificamente, mulheres negras. A judoca Rafaela Silva, 27, compõe com Dandara, Dona Ivone Lara, Laudelina Campos e Carolina Maria de Jesus um quadro com "Cinco divas no altar do Amizade".

Campeã olímpica em 2016, a atleta é vista pela escola como uma personagem importante na luta da comunidade negra. A homenagem foi decidida antes da suspensão de Rafaela por doping. Ela recorre de uma punição que poderá tirá-la dos Jogos Olímpicos de Tóquio, neste ano.

A carioca disse que o contato com a substância proibida fenoterol foi feito involuntariamente e ganhou apoio da escola de samba paulistana, que manteve a reverência com os versos: "Vem do tatame o grito de ‘é campeão’, medalha de ouro, orgulho da nossa nação".

Também falará de negritude a Tom Maior, do grupo especial de São Paulo, com o enredo "É coisa de preto". A força do negro no esporte é parte da história a ser contada no Anhembi pela escola, que põe Pelé como destaque, mas aponta que outros lhe abriram alas.

"Sair do óbvio é perceber que, para que houvesse um Rei, muitos soldados tiveram que se sacrificar", afirma a escola da zona oeste paulistana, lembrando que o futebol "era reduto dos ricos e, por consequência, dos brancos".

Outros atletas são citados na sinopse do enredo: Aída dos Santos, Daiane dos Santos, Leônidas da Silva, Maguila e, novamente, Marta.

O amor fará parte do desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel, que vai reverenciar "Elza Deusa Soares". No cortejo biográfico em homenagem à cantora, não faltará sua história com Garrincha. "Amou e foi amada. Sem medo e sem vergonha. Sem limites. […] Tombou. Cadente estrela. Solitária", relata a escola.

O tom da São Clemente, por sua vez, será irreverente. Ao brincar com "O Conto do Vigário" e as várias picaretagens que fazem parte do imaginário do brasileiro, a agremiação da zona sul carioca lembrará as figuras ligadas à política do Rio de Janeiro que foram levadas ao presídio de Bangu.

Para isso, aparece alegoricamente a figura do VAR, o árbitro de vídeo, que busca irregularidades no futebol após a conclusão das jogadas: "Chamou o VAR, tá grampeado, vazou, deu sururu, tem marajá puxando férias em Bangu".

Haverá ainda, na Imperatriz, uma referência aos hinos das principais equipes do Rio de Janeiro. Rebaixada à segunda divisão, a escola de Ramos tentará voltar à elite reeditando seu enredo vitorioso de 1981, agora chamado de "Só dá Lalá", uma homenagem a Lamartine Babo.

Foi Lamartine quem compôs os hinos dos grandes e de vários dos times pequenos cariocas. Por isso, haverá alas representando as torcidas de Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo.