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Publicado em: 19 de novembro de 2019

Escritores do Instagram seduzem editoras com textos para consolar e viralizar

Imagem:

SÃO PAULO, SP – Assim como um celular já não é feito só para ligações, os contos e os poemas não são mais escritos apenas para serem lidos. É preciso curtir, comentar, marcar os amigos, seguir o autor e assistir às suas recomendações.

O mesmo vale para os escritores, é claro, que deram adeus ao mundo no qual a única preocupação criativa é a folha em branco –agora é necessário analisar métricas online, calcular alcances e estudar como gerar engajamento e aumentar os seguidores.

Sucesso nas redes sociais, nas quais mobilizam centenas de milhares de fãs com pequenos textos quase sempre sentimentais e motivacionais, os autores de Instagram fazem cada vez mais os olhos das editoras brilharem –e seus bolsos salivarem. 

A conta é simples. Se conseguirem converter 5% dos seguidores em compradores, elas já terão um best-seller nas mãos (no Brasil, um título que vende 3.000 cópias já faz parte desse grupo). 

No caso do Akapoeta, codinome de João Doederlein, que ostenta 1,1 milhão de seguidores, chegamos a 11 mil exemplares se 1% de seus fãs adquirirem seus títulos.

Em um mercado constantemente em crise, que foi salvo pelos livros de colorir e se apegou depois aos youtubers como boia para não afundar, a aposta nos autores de Instagram parece fazer ainda mais sentido, já que eles têm uma base de leitores dispostos a consumir literatura.

"É claro que existe uma fórmula do que viraliza e do que não viraliza. Todos usam. Eu ganhei projeção, por exemplo, fazendo descrições de nomes", conta Edgard Abbehusen.

Com cerca de 700 mil seguidores, o autor tem dois livros publicados pela editora Villardo –"Quem Tem como me Amar Não me Perde em Nada" e "O que Tiver de Ser Amar". No ano que vem, lançará um novo título pela Planeta.

Além dos microtextos sobre nomes, Abbehusen também apostou em descrições literárias de signos e publica semanalmente uma oração. Já o Akapoeta ficou famoso ao ressignificar palavras aleatórias, feito um dicionário poético.

Por trás dessas fórmulas, há algo que costuma unir essa literatura –os textos são geralmente construídos com um quê de autoajuda e de conselhos para momentos difíceis. É o que Umberto Eco certa vez definiu como escritores kitsch ou sentimentais, "que almejam oferecer consolação barata".

"Autoajuda funciona para cacete, é o que a galera compartilha, comenta. Não é nenhum demérito. Esse tipo de texto está fazendo muita gente ler", defende Abbehusen.

Não só no Brasil, mas também fora. A editora Planeta traduziu dois livros da indiana Rupi Kaur, fenômeno da internet que publica poemas instantâneos e que vendeu por aqui mais de 400 mil exemplares.

"O sucesso nos levou a olhar outros autores de poesia conectados com gerações mais jovens", conta Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Planeta no Brasil, que, na esteira de Kaur, lançou nomes como a americana Amanda Lovelace e a brasileira Ryane Leão.

"Não acredito que o sucesso do gênero tenha relação com a crise econômica ou que seguidores representem necessariamente vendas. Nós e outras editoras já tivemos livros de autores com muitos fãs que não venderam", diz Machado.

Embora façam o sentimentalismo escorrer pelas telas de computadores e smartphones e muitas vezes usem e abusem de verbos no imperativo, boa parte dos autores rejeita a etiqueta de autoajuda.

"Escrevo sobre coisas específicas, não faço textos genéricos, que é o que define a autoajuda", avalia Akapoeta. Com dois títulos pelo selo Paralela, da Companhia das Letras ("O Livro dos Ressignificados" e "Coração Granada", que venderam juntos 100 mil exemplares), ele acaba de publicar um novo pela HarperCollins.

"O Invisível aos Olhos" traz reflexões amorosas do autor costuradas a trechos de "O Pequeno Príncipe". "A rede social é um suporte, mas sempre quis publicar livros. Acho que o Saint-Exupéry, se estivesse vivo, estaria no Instagram."

Escrevendo na internet há 12 anos, Ryane Leão também diz que seu sonho sempre foi publicar livros. "Sou uma poeta que escreve no Instagram, não uma instapoeta", diz. "Quando falam em instapoeta, geralmente é para deslegitimar a nossa produção."

Com versos que transbordam dor e partem de seu ponto de vista de mulher negra e lésbica, que gera engajamento de leitores mais progressistas e ligados a temas como feminismo e movimento negro, Leão lançou "Tudo nela Brilha e Queima" no ano passado. Neste mês, sua segunda obra chegou às livrarias, "Jamais Peço Desculpas por me Derramar" –ambos pela Planeta.

"Ainda não vivo de Instagram, mas é meu sonho. Pode pôr isso na entrevista, para que mais pessoas me chamem para campanhas publicitária. Ninguém trabalha de graça", diz Leão, rindo.

Aí está outra característica do grupo –ser digital influencer da literatura implica também lidar com marcas, parcerias comerciais e a hashtag #publi.

São vários os casos. Abbehusen, por exemplo, já fez conto sobre o Dia do Amigo para um restaurante e escreveu sobre diferentes tipos de casais para uma rede de shoppings. Akapoeta criou um significado poético para a palavra "livro" patrocinado pela Pólen, marca de papel, e fez definições para os filmes "Deslembro" e "Encontros".

Todos afirmam, porém, que a propaganda não influencia em nada a literatura e se dizem independentes para negar propostas que não conversem com seus trabalhos.

Para decidir as publicidades do seu perfil, Akapoeta diz avaliar a marca e os valores dela –em suma, uma análise de marketing. "É que eu estudo publicidade", diz o poeta.

O INVISÍVEL AOS OLHOS

Preço: R$ 34,90 (64 págs.)

Autor: Akapoeta

Editora: HarperCollins

JAMAIS PEÇO DESCULPAS POR ME DERRAMAR

Preço: R$ 37,90 (160 págs.)

Autor: Ryane Leão

Editora: Planeta

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