SÃO PAULO, SP – Nada deixa Marco Tullio Giordana tão satisfeito quanto comparar "A Melhor Juventude" aos filmes de Valerio Zurlini. Seus olhos brilham: "É o meu mestre!".

Lamenta, logo em seguida, o fato de Zurlini ter tido muito menos reconhecimento do que merecia: "Os críticos foram muito injustos com ele", em especial na Itália, pontua. "Seus últimos filmes trazem muita melancolia, isso talvez seja um dos motivos."

A melancolia não é, certamente, a marca de "O Melhor da Juventude", que abarca 40 anos da história de uma família italiana, desde o fim do milagre econômico em seu país até 2003, passando pelas crises políticas pós-1968 (Brigadas Vermelhas), o combate à corrupção (Operação Mãos Limpas) e à máfia.

O cineasta italiano Marco Tullio Giordana instrui o ator Carlo de Filippi durante as filmagens de "Pasolini-Um Delito Italiano". Se o destino italiano é marcado por crises, de radicalismo político ao enfrentamento à corrupção, "O Melhor da Juventude" registra todo esse movimento. Mas não espere de Giordana um juízo sobre a situação política de seu país: "Hoje a cena política é ocupada pela radicalização das posições populistas e de extrema direita, um pouco como em grande parte do mundo. Mas eu não sou um expert em política. Nossa tarefa de artistas é como a do termômetro: registrar a febre que sobe".

O destino de seu filme é não menos tempestuoso que o da própria Itália. Produzido pela RAI, o filme acabou engavetado por "excesso de qualidade", segundo o cineasta. A direção da emissora estatal italiana teria alegado que o longa não conviria para o público popular, num momento em que a RAI disputava audiência com as redes privadas.

O produtor do filme, Angelo Barbagallo, o levou ao Festival de Cannes, onde "A Melhor Juventude" foi enfim apresentado e ganhou o prêmio da mostra Un Certain Regard. A partir daí, o título colecionou prêmios dentro e fora da Itália. E, sim, foi finalmente exibido pela RAI na forma de minissérie em cinco capítulos: "E com bela audiência", garante Giordana.

Ao contrário de Zurlini, que conheceu em 1981, um ano antes de sua morte, Giordana não tem do que se queixar em matéria de reconhecimento: com 39 anos de carreira, a galeria de prêmios é considerável, Mas, até hoje, ele tem apenas 17 longas já feitos.

Talvez isso se deva ao fato de que sua carreira foi construída num momento de transição. As grandes gerações do cinema italiano chegavam ao final, o cinema popular minguava, tudo passou a depender do apoio estatal. "E os políticos odeiam o cinema. Porque o cinema os critica. E o poder odeia ser criticado", diz.

Ao contrário de um Nanni Moretti, por exemplo, que não poupa políticos como Silvio Berlusconi, Giordana não se preocupa em destacar um político entre tantos. O inimigo do cinema é o poder. Ponto.

A cultura italiana, ao contrário, o fascina. Talvez por isso seu filme destaque aquilo que considera a única grande contribuição italiana à cultura na segunda metade do século passado: o trabalho de Franco Basaglia, pioneiro da luta antimanicomial.

Não é só: os personagens cruzam o país, de Palermo a Turim, de Milão a Florença, passando por Roma, claro. É um ideal italiano de beleza que atravessa o filme tanto quanto as crises que abalaram o país nos últimos 40 anos do século passado. Tudo isso está num filme muito marcado pela relação entre dois irmãos. Bem menos melancólica do que no "Dois Destinos" de seu mestre Zurlini, mas não menos marcante.