RIO DE JANEIRO, RJ – No ar em "Éramos Seis" (Globo) como Dona Genu, Kelzy Ecard, 54, reconhece que está numa situação de privilégio em relação a seus colegas do teatro. Contratada por uma emissora de TV, a atriz sabe que o momento para a classe artística é de dificuldade. "É muito triste ver o que está acontecendo. Os artistas vivem uma verdadeira perseguição."

Ecard diz que a indústria cultural é uma das mais rentáveis do país e emprega não só artistas, mas costureiros, camareiros, contrarregras, iluminadores, faxineiros, bilheteiros, pipoqueiros, entre outros. "Os investimentos geram praticamente o dobro do dinheiro aplicado. Trabalhamos todos os dias da semana, praticamente 24 horas por dia." 

A atriz dá a declaração em meio a movimentações políticas que desagradam a classe artística, a exemplo do projeto de lei que acaba com a obrigatoriedade de registro profissional para artistas e da retirada de cartazes de filmes brasileiros da sede da Ancine (Agência Nacional do Cinema), localizada no Rio, após o presidente Jair Bolsonaro afirmar que filmes "contra os valores da família" passariam por um filtro.

Um episódio envolvendo o dramaturgo Roberto Alvim, ex-secretário da Cultura, também gerou repercussão negativa entre os artistas. Em setembro de 2019, ele fez um discurso em que chamou a atriz Fernanda Montenegro, 90, de "sórdida" e "mentirosa". Na semana passada, ele foi demitido após fazer um discurso em que copiou uma citação do ministro de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels.

"O artista não é simplesmente aquele que bate o ponto e esquece da vida. É uma profissão como todas as outras, que merece respeito, dignidade, investimento público e que não sejamos tachados de criminosos", completa Ecard. 

Em "Éramos Seis", a situação política e trabalhista também não é das melhores. A Revolução Constitucionalista de 1932, que começa a se desenhar na trama, vai atingir todos os núcleos da novela, segundo Ecard. "Haverá um período de turbulência na novela por causa da revolução", adianta.

A atriz diz ainda que Genu vai cortar um dobrado com o filho, Lúcio (Jhona Burjack), que irá se envolver com cada vez mais na política, a contragosto da mãe. A atriz afirma que, na vida real, não costuma se meter na vida do filho, Pedro, de 16 anos. O jovem, diz Ecard, tem o desejo de ser músico.

"Sou a pessoa mais democrática do planeta. Meu filho agora está descobrindo o caminho dele. Sei que a vida de artista, no geral, é complicada e atualmente estamos vivendo uma fase meio ‘treva’, mas em momento nenhum pensei em fazer qualquer tipo de aconselhamento nesse sentido."

A intérprete da fofoqueira Genu confessa, no entanto, que não gostaria de que Pedro enveredasse para carreira política, a exemplo de Lúcio. "Tá aí uma coisa que seria difícil para mim. Sou bastante politizada, mas acho que neste momento está complicado, até porque estamos vendo os políticos de uma forma que não é legal. Mas acho que isso tem que mudar. Há políticos bons também."

FOFOQUEIRA DO BEM

Se tem uma coisa que Genu sabe fazer muito bem, é ficar de olho na vida alheia e fofocar bastante. E o público, segundo Ecard, têm acolhido a personagem, que ganhou a alcunha de "fofoqueira do bem".

"O retorno dos telespectadores está sendo muito bacana. Outro dia, eu tirei uma foto com uma moça que disse que a dona Genu era uma fofoqueira do bem. Ela é muito parceira de Lola (Gloria Pires) e acho que isso salva ela de ser massacrada, então estou salva disso (risos)", diz a atriz, em tom de brincadeira, ao ressaltar ter se inspirado na própria mãe, Marli, para compor alguns dos traços da personagem.

"Genu é muito criança, né? Tem um espírito que não condiz muito com a idade dela. Ela tem esse vigor, essa vitalidade. Aliás, eu me inspiro muito na minha mãe nesse quesito. Ela está vivendo um momento muito engraçado, porque as pessoas reconhecem a semelhança entre Genu e ela. Aos 84 anos de idade, ela dança e, às vezes, toma até uma cervejinha."