BRASÍLIA, DF – Natália Alves de Amorim, 67, recebeu indicação para radioterapia ainda em janeiro, após cirurgia para retirada de tumor na mama.

No início, ouviu da equipe de saúde que o procedimento seria marcado após o Carnaval -reflexo já de uma fila na rede. A pandemia do novo coronavírus, porém, mudou as previsões.

A justificativa era uma necessidade de reduzir atendimentos para evitar possível infecção. Logo a espera aumentou, e ela só conseguiu iniciar as sessões no fim de maio.

"A espera foi angustiante, com muita ansiedade. Não sabia quando seria e tinha medo que tudo voltasse", relata. "Agora que comecei a fazer, estou mais calma."

A história de Natália retrata parte do desafio vivido por pacientes e pela própria rede de saúde que atende casos de câncer no país.

Levantamento feito pelo Instituto Oncoguia, organização de apoio a pessoas com câncer, aponta relatos de procedimentos adiados ou cancelados -alguns até mesmo sem previsão de retorno.

A entidade enviou um questionário online a pacientes e familiares entre 15 de março e 10 de maio, na tentativa de dimensionar alguns impactos da pandemia da Covid-19 no câncer.

Ao todo, 566 pessoas responderam -destes, 429 são pacientes atualmente em tratamento.

Entre esse grupo, 43% relatou ter o tratamento afetado no período, com procedimentos adiados, cancelados e dificuldade para marcar consultas.

Dos pacientes afetados, 34% dizem que realizam quimioterapia, 31% hormonioterapia, 9% radioterapia e o restante imunoterapia e outros tratamentos.

O percentual também foi maior entre pacientes do SUS (60%) em comparação aos do setor privado (33%).

Para a presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, a situação gera alerta.

"É um dado muito sério, tendo em vista que a recomendação oficial é que o tratamento do câncer não pode parar", diz. "Embora todos estejam olhando para a pandemia, as outras doenças não deixam de existir. Há um impacto do coronavírus também nessas outras doenças."

Mas quais podem os impactos de um atraso no tratamento? Segundo especialistas, a situação varia.

"Depende muito do tipo de câncer. Câncer de próstata e de mama, que podem ser tratados em grande proporção por hormonioterapia, possivelmente terão impacto menor na pandemia. Já para os cânceres que dependem de infusão por quimioterapia, o impacto de qualquer atraso é real. A chance de curar ou controlar a doença se não fizer o tratamento adequado é menor", afirma Rafael Kaliks, oncologista clínico no Hospital Albert Einstein.

"A realidade é que isso vai sim ter um impacto no câncer, com menor taxa de cura, e isso é extremamente grave", diz.

Questionados sobre os motivos para adiamento ou cancelamento, a maioria dos pacientes que indicaram impactos apontou decisão da instituição onde fazia o tratamento.

Entre as justificativas relatadas, estão risco de contágio, priorização de pacientes, redução de equipe e fechamento do hospital. Também foram informados casos de decisão compartilhada junto ao médico ou opção própria, mas em menor volume.

Segundo Gélcio Mendes, coordenador de assistência do Inca (Instituto Nacional de Câncer), do Rio de Janeiro, parte desse cenário expressa uma tentativa de organização da rede para evitar contaminações.

Ele cita como exemplo o impacto em hospitais que fazem parte da rede do Inca, onde a opção inicial foi por adiar o atendimento de pacientes que tinham maior controle clínico, diminuindo a lotação, e priorizar casos mais urgentes com testagem.

O procedimento mais afetado, afirma, foram cirurgias. Ele diz estimar uma redução de 30% a 40% –antes, era cerca de 500 ao mês. "Mas o impacto não é linear e varia por procedimento. Fizemos contato com outros hospitais que tratam câncer e o cenário é o mesmo."

Ele diz que há um esforço para manter quimioterapias e radioterapias, mas que pode ter havido atrasos.

"Também tivemos problemas paralelos. Chegamos a ter 30% dos funcionários doentes e tivemos que transformar vários leitos em leitos para Covid, porque alguns sintomas são parecidos com complicações oncológicas", relata.

Além dos tratamentos, especialistas também chamam atenção para o impacto também em outras fases do atendimento do câncer -caso da própria detecção da doença e da definição no tratamento.

Foi o que ocorreu com José Firmino Ribeiro, 82, que recebeu diagnóstico de câncer de esôfago ainda em janeiro, após consultas e exames na rede particular.

Sem dinheiro para manter o atendimento, a família buscou apoio da rede pública.

"Primeiro marcaram em um hospital, mas ligaram avisando que cancelaram, ainda antes da pandemia. Depois me ligaram de outro, onde nem sabia que tinha consulta marcada, e disseram que iam cancelar pelo coronavírus", afirma o filho José Araújo, 34.

Em meio a espera, ele conta que o pai foi internado com pneumonia e recebeu uma sonda gástrica, devido à dificuldade para se alimentar. Mas ainda não teve resposta para o câncer.

Questionada sobre o caso de José, a secretaria municipal de Campinas negou que a primeira consulta tivesse sido desmarcada, o que a família nega, e diz que o atendimento oncológico segue normalmente.

Segundo a secretaria, após ser internado, Firmino foi incluído em uma fila regional, gerenciada pelo estado.

"A fim de que o paciente possa ter o atendimento com o oncologista o mais brevemente possível, a central de regulação vai solicitar a ficha do paciente ao estado", informou.

Para Kaliks, o atraso na detecção e início do tratamento pode levar a uma onda de casos de câncer avançado, onde o prognóstico pode ser pior a depender do quadro.

Essa situação ocorre tanto por temor do paciente, que acaba por adiar a ida ao médico, quanto pela redução dos serviços em meio ao risco de infecção e sobrecarga de atendimento.

"O número de pacientes com possibilidade de perder a janela de cura é muito grande. Hoje mesmo atendi um com tumor de 9 cm no tórax que estava há meses em casa com sintomas, mas procastinando com medo da pandemia", relata Clarissa Mathias, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica.

para ela, uma solução que pode ser adotada para driblar esses casos é a criação de áreas chamadas de "covid-free" em hospitais de áreas menos impactadas pela Covid.

A medida já começou a ser aplicada em alguns locais, mas enfrenta impasses em outros devido a sobrecarga na rede.

Outra alternativa recomendada é aumentar a oferta de telemedicina, meio que poderia ajudar no acompanhamento de pacientes e diagnóstico prévio de casos, encaminhando suspeitas graves à rede.

Para Holtz, do Oncoguia, é preciso também pensar em medidas extras de apoio emocional aos pacientes diante do adiamento de atendimentos, como rodas de conversa online e grupos de apoio.

A área emocional, aliás, foi a mais citada como afetada no levantamento com pacientes sobre o impacto do coronavírus -52% assinalaram esse item. Outros 46% indicaram impacto social, 33% de saúde e 32%, financeiro.

A reportagem procurou o ministério para saber se havia algum plano para garantir o atendimento de câncer em meio ao novo coronavírus e dados sobre o impacto em atendimentos.

Em nota, disse apenas que o controle da rede de atenção cabe aos estados e municípios e que não há dados até o momento.

Para especialistas, a rede de saúde terá que encontrar maneiras lidar com o gargalo em diagnóstico e tratamentos.

"Sabemos que o país já tinha um deficit e atraso grande para o início do tratamento, e isso vai se agravar", diz Mendes, do Inca. "Como resolver é a discussão que fazemos hoje, e que vai ser o desafio de todos os gestores do SUS."