BRUXELAS, BÉLGICA – Cabelos crespos reduzem as chances profissionais de mulheres negras, indica pesquisa recém-publicada pela Universidade Duke, nos Estados Unidos.

De acordo com o estudo, publicado na revista Social Psychological and Personality Science, candidatas negras com penteados naturais ou usando tranças afro são percebidas como menos profissionais do que negras com cabelos alisados, principalmente em setores nos quais a cultura é de aparência tradicional.

"O resultado mostra que há preconceitos individuais que precedem práticas racistas nas corporações e perpetuam a discriminação racial", diz a coautora da pesquisa, Ashleigh Shelby Rosette, professora de administração e reitora associada da Escola de Negócios Fuqua, da Duke.

O trabalho mostrou de forma científica algo que a britânica Arnold, por exemplo, sentiu na pele ao ser rejeitada por uma agência de recepcionistas para eventos.

A empresa lhe disse que seria impossível admiti-la se ela mantivesse os dreads (tranças comuns na comunidade negra de origem jamaicana em Londres), contou ela a pesquisadoras europeias.

Para detectar de forma sistemática o preconceito, os pesquisadores da Duke selecionaram participantes de várias origens e cor de pele e lhes pediram que assumissem o papel de recrutadores de candidatos a empregos.

Eles receberam currículos de candidatas a emprego negras e brancas, e as avaliaram em categorias como profissionalismo, competência e outros fatores.

Mulheres negras com penteados naturais receberam notas mais baixas em profissionalismo e competência e não foram recomendadas com tanta frequência para entrevistas, na comparação com negras de cabelo alisado e brancas com qualquer tipo de cabelo.

Uma mesma mulher avaliada em dois momentos, um com penteado natural e outro com cabelos alisados, foi descrita como mais educada, refinada e respeitável quando apareceu de cabelos lisos e recebeu mais recomendações para uma vaga em consultoria.

Rosette diz que isso reflete o fato de que "os brancos têm sido o grupo social dominante em muitas sociedades ocidentais, e o padrão de aparência profissional é baseado em seus próprios modelos".

Para ultrapassar essa barreira, muitas mulheres se submetem a alisamentos "que custam milhares de dólares por ano e causam complicações de saúde", diz a pesquisadora.

Nos salões de cabeleireiro do bairro Matonge, que concentra moradores de origem africana em Bruxelas, escovas e alisamentos custam entre 30 e 100 euros (de cerca de R$ 180 a mais de R$ 600), dependendo do comprimento dos fios.

"Quando não posso fazer escova, prendo os cabelos para trabalhar", diz a belga de origem congolesa Luciene, funcionária de um banco. "Sempre que apareço com meus cabelos naturais me fazem sentir que não estou agindo profissionalmente", diz ela.

Segundo a cabeleireira senegalesa Michele, ainda há muita resistência a penteados africanos. "As mulheres que não podem estar alisando sempre acabam usando perucas", diz ela.

Na African Beauty, loja de perucas e apliques do bairro, praticamente todos os modelos da vitrine têm cabelos lisos e longos.

Um fornecedor menor numa galeria de Bruxelas expõe adereços de cabelos lisos ou crespos, de vários comprimentos e cores, com preços que vão de 12 a 60 euros (de cerca de R$ 75 a mais de R$ 350).

Segundo a vendedora Fiffy, a maioria das clientes negras que trabalham em empresas europeias procuram "um modelo de aparência mais branca". Perucas mais sofisticadas, com fios naturais, podem custar até 200 euros (cerca de R$ 1.300).

Além do cabelo afro, o uso do véu islâmico atrasa a vida profissional das mulheres na Europa, diz a chefe de advocacia política da Rede Europeia Contra o Racismo (Enar), Juliana Santos Wahlgren.

Wahlgren, que mora na Bélgica, coordenou uma pesquisa sobre o assunto no continente, que mostrou que a vestimenta religiosa ou a aparência étnica também reduzem chances de progressão e chegam a provocar demissões.

A entidade conta o caso de uma engenheira de projeto francesa que tinha como uma de suas tarefas visitar clientes. Um deles queixou-se à empresa de que o uso do lenço perturbava seus funcionários, e o chefe pediu à engenheira que ela deixasse de usá-lo, por "princípio de neutralidade".

Ela se recusou e foi demitida.

Em sua pesquisa na Universidade Duke, Rosette sugere ações como as de "seleção cega", em que informações como nome, idade e fotos são eliminadas dos currículos ajudam a contornar preconceitos.

Wahlgren acrescenta que, se a aparência é uma barreira evidente no mercado de trabalho, há outras que não devem ser negligenciadas, como o local de moradia e o nome das escolas cursadas pelos candidatos.

Nos projetos que desenvolve com grandes empresas europeias, como Coca-Cola, Sodexo, Adeko, Ikea e Inditex (dona da Zara), para mitigar o racismo, a Enar sugere seleção ativa em áreas e universidades que tenham maior porcentagem de negros e parcerias com entidades que atuam contra o racismo.

Tanto Rosette quanto Wahlgren, porém, dizem que é preciso ir além da seleção. "É preciso reconhecer que há um preconceito inconsciente contra o tipo de cabelo, pois ele afeta decisões dentro da empresa", diz a professora de Duke.

"Não adianta apenas criar um regulamento e punir individualmente funcionários que o desrespeitarem. É preciso uma nova cultura na empresa", afirma Wahlgren.

Nas companhias com as quais trabalha, ela defende que antes de serem baixadas regras é preciso criar estruturas de respeito, como canais seguros para informar problemas e diversidade real, não apenas numérica, em órgãos de decisão.

"Treinamento, diálogo, coleta de dados e sua análise também são fundamentais", afirma ela. Sem isso, as iniciativas corporativas "funcionam apenas como ‘bandaid’, sem atacar os problemas estruturais".

Segundo Rosette, não só o trabalhador é afetado, mas a própria companhia, quando um funcionário mais competente é preterido por causa de sua aparência.

O trabalho americano descobriu, no entanto, que o tipo de cabelo não fez diferença quando as candidatas eram avaliadas para vagas em uma agência de publicidade.

"Isso pode ocorrer porque a publicidade é vista como uma indústria mais criativa do que a consultoria com normas de vestimenta menos rígidas", segundo Rosette e Christy Zhou Koval, professora assistente da Universidade do Estado de Michigan, que participou da pesquisa.