BRUXELAS, EUROPA – Era para ser só um feriado de Carnaval na praia, enquanto o marido e os filhos esquiavam. Mas a britânica Jane (nome fictício), 54, acabou trancada em quarentena com outros cerca de 700 hóspedes, num hotel em Tenerife, nas Ilhas Canárias. Ela conta como o coronavírus afeta seus dias desde que chegou ao arquipélago espanhol, no último sábado (22):

Em vez de ficar em casa com o cachorro no feriado, resolvi passar dois dias em Tenerife, poderia pegar algum sol e visitar amigos. 

Cheguei no sábado (22), e logo no domingo não pude sair, por causa da tempestade de areia "calima", a pior dos últimos 40 anos.

Na segunda, com o tempo melhor, dei uma caminhada, passei pela piscina e voltei para o quarto. Às 7h30 da manhã seguinte, quando me preparava para sair, passaram um comunicado sob a porta avisando que o hotel estava em quarentena e todos deveriam ficar nos quartos.

Não havia informação sobre quando e onde comer, tomei o café da manhã no quarto e esperei até as 18h para que medissem minha temperatura. 

Na terça distribuíram máscaras e avisaram que todos deveriam medir a temperatura pela manhã e à noite. A recomendação ainda era ficar no quarto, mas, quando desci para o café, vi que a piscina estava cheia.

Estou olhando para a piscina agora [15h30 da quinta, horário do Brasil], e alguns usam máscaras, depois tiram, outros nunca usam. E todas as crianças da piscina infantil estão sem ela.

Há dois tipos de hóspedes, os que estão aproveitando o feriado, tomando sol, relaxando, e os que estão seguindo as orientações e ficando no quarto.

Aparentemente não houve nenhum outro caso desde que os italianos que adoeceram foram retirados, mas vamos ficar isolados no mínimo 14 dias e, se surgir mais alguém doente, vão ser mais duas semanas, depois mais duas semanas.

Eu deveria estar voltando para casa nesta quarta. Felizmente trouxe meu computador e posso trabalhar, mas tem sido difícil porque recebo ligações dos amigos, da família. 

Tenho crises terríveis de enxaqueca, de parar no hospital, e na noite passada precisei chamar o médico às 4h para tomar uma injeção.

Seria muito mais fácil se eles dissessem ‘OK, você poderá sair sem dúvidas no dia 10 de março’, mas essa indefinição é que é difícil.

E as medidas sem lógica que estão tomando. Nesta quarta liberaram 130 pessoas que chegaram segunda, depois que os italianos já haviam saído. 

Não tiveram contato com os doentes, mas tiveram com todos os outros hóspedes que estavam desde sábado, confraternizando na piscina. Devem ter tido mais contato com o vírus que eu, que fiquei o tempo todo no quarto.

Não tenho medo de pegar o vírus. Teria se fosse o ebola, mas essa doença não me preocupa, acho que estão exagerando no barulho.

Estou tranquila, porque estou aqui sozinha e bem, mas há pessoas com bebês, crianças pequenas, e a situação não é confortável. Há drones passando a toda hora, guardas na porta para impedir que alguém tente sair.

Estou tentando entrar em contato com o consulado britânico para ver se há alguma possibilidade de sair daqui.