SÃO PAULO, SP – A recusa do líder rebelde que domina quase toda a Líbia em assinar um acordo para tentar acabar com a guerra civil no país opôs Turquia e Rússia, as potências estrangeiras que costuram a saída para o conflito.

O marechal Khalifa Haftar esteve na segunda (13) em Moscou com o líder do governo reconhecido internacionalmente em Trípoli, Fayez al-Sarraj. Ambos não se encontraram e, enquanto Sarraj assinou o memorando de entendimento, o militar rebelde que conta com apoio de Vladimir Putin deixou a capital russa.

Sarraj viajou então para a Turquia para encontrar-se com Recep Tayyip Erdogan, o presidente que o apoia e entrou tardiamente no jogo da guerra civil, mas de forma decisiva: o Parlamento turco aprovou o envio de tropas para apoiar o governo em Trípoli.

Falando a apoiadores nesta terça (13), Erdogan disse que Haftar "fugiu" de Moscou. E o ameaçou. "Ensinaremos uma lição a ele", disse, caso as forças rebeldes retomem ataques contra a capital líbia.

O tom do governo Putin, que auxilia Haftar indiretamente com o uso indireto de mercenários, foi diverso. O Ministério da Defesa informou que o marechal pediu dois dias para consultar os líderes tribais que apoiam o seu Exército Nacional Líbio sobre o acordo, e que parecia satisfeito com os termos.

O que Haftar pensa mesmo é incógnito. Segundo a TV saudita baseada em Dubai Al Arabiya, ele disse a aliados que não assinará o acordo enquanto duas questões não forem abordadas: o desarmamento de todas as milícias do país e o veto à presença turca no monitoramento do cessar-fogo.

Ainda segundo o relato, ele quer o direito de entrar em Trípoli para formar um governo e considera que suas demandas foram ignoradas nas negociações. O rascunho em Moscou fala apenas em congelar o envio de tropas de Ancara para o país mediterrâneo, deixando a supervisão do acordo com a Rússia, e nada diz sobre as milícias.

Enquanto a imprensa turca fala sobre risco de uma renovada ação militar de Haftar, analistas russos acreditam que ele está apenas valorizando sua posição de força, mas que ao final irá compor. Ele tem recebido apoio dos russos desde pelo menos 2016, e esteve algumas vezes pessoalmente em Moscou desde então.

Enquanto isso, o Ocidente assiste dois países fora de sua esfera decidindo o futuro de uma guerra civil no país que já foi o terceiro maior fornecedor de petróleo da União Europeia (hoje é o oitavo, devido à crise). Além disso, a Líbia é um dos grandes portos de saída de imigrantes ilegais para o sul europeu, uma crise humanitária contínua com sérias implicações políticas nos últimos anos.

Numa jogada calculada, Putin combinou com a chanceler alemã Angela Merkel a realização de uma reunião de cúpula domingo (19) em Berlim. Nesta terça, a Alemanha confirmou que convidou todos os envolvidos, mais o premiê italiano, Giuseppe Conte -a Itália já foi a força estrangeira mais importante na Líbia.

O russo quer aproximar-se dos alemães, visando o incremento dos investimentos na letárgica economia do maior país do mundo. Com isso, também tenta afrouxar politicamente o regime de sanções imposto pelo Ocidente desde que anexou a Crimeia na esteira da derrubada do governo pró-Kremlin na Ucrânia, em 2014.

Putin parecia contar com seu acordo já assinado para levar a Berlim, e a diplomacia russa agora trabalha para convencer Haftar a demonstrar apoio à negociação. Se fracassar, o russo pode perder o papel de principal ator na discussão do futuro líbio.

O país o interessa estrategicamente, já que levaria a influência russa para os calcanhares da Europa, e economicamente, já que sua Rosneft (a Petrobras russa) poderia ajudar a reconstruir a indústria petroleira líbia, que se assenta sobre as maiores reservas de petróleo da África.

Já Erodgan busca reforçar sua posição no Mediterrâneo, ameaçada pelo questionamento sobre águas territoriais em torno do Chipre, que tem sua porção norte ocupada pelos turcos. E, de quebra, retomar os talvez US$ 20 bilhões em projetos que o país tem parados na Líbia desde a queda do ditador Muammar Gaddafi, em 2011.

As relações entre Moscou e Ancara são ziguezagueantes. Membro da Otan, a Turquia chegou a abater um avião russo no começo da intervenção de Putin que salvou a ditadura de Bashar al-Assad na Síria, em 2015.

Depois, Erdogan afastou-se dos EUA pela recusa ocidental de admitir o país muçulmano na União Europeia e pela tentativa de golpe contra si, atribuída a um opositor que vive nos EUA. Aproximou-se de Moscou, de quem comprou polêmicos sistemas antiaéreos, firmando acordos energéticos e acertando uma partilha territorial no norte da Síria.

O país de maioria árabe no Norte da África está em caos desde que uma revolta apoiada por ataques aéreos da Otan (aliança militar ocidental) derrubou Gaddafi, morto tão barbaramente quanto viveu.

Em 2015, já de volta do exílio nos EUA, Haftar assumiu o comando do Exército, que acabou dividido. Agora, sua facção comanda boa parte do país, cercando com o auxílio de tribos tuaregues e outras milícias as forças oficialistas de Sarraj. Há ainda interesses egípcios e dos Emirados Árabes Unidos na região, além do combate a células do Estado Islâmico.